"O critério de demarcação inerente à lógica indutiva - isto é, o dogma positivista do significado do sentido - equivale a exigir que todos os enunciados da ciência empírica (ou todos os enunciados com sentido) sejam susceptíveis de uma decisão definitiva com respeito à sua verdade e à sua falsidade, podemos dizer que têm de ser " decidíveis" de modo concludente. Isto quer dizer que têm de ter uma forma tal que seja logicamente possível tanto verificá-los como falsificá-los. Assim disse Schlick: (...) Um autêntico enunciado tem que ser susceptível de verificação concludente; e Waismann escreve ainda com maior claridade: Se não é possível determinar se um enunciado é verdadeiro, então carece inteiramente de sentido: pois o sentido possível de um enunciado é o método da sua verificação.
Ora bem, na minha opinião, não existe nada que possa chamar-se indução. Portanto, será logicamente inadmissível a inferência de teorias a partir de enunciados singulares que estão verificados pela experiência (o que quer que seja que isto queira dizer). Assim, pois as teorias não são verificáveis empiricamente.
Se queremos evitar o erro positivista que o nosso critério de demarcação elimina dos sistemas teóricos da ciência, devemos eleger um critério que nos permita admitir no domínio da ciência empírica inclusive enunciados que não podem verificar-se.
Mas, certamente só admitirei um sistema entre os científicos ou empíricos se é susceptível de ser contrastado pela experiência. Estas considerações sugerem- nos que o critério de demarcação que temos de adoptar não é o da verificabilidade, mas o da falsicabilidade dos sistemas. Dito de outro modo: não exigirei que um sistema científico possa ser seleccionado, de uma vez para sempre, num sentido positivo; mas sim que seja susceptível de selecção num sentido negativo por meio de contrastes ou provas empíricas: há- de ser possível refutar pela experiência um sistema científico empírico."
Karl Popper, A Responsabilidade do Cientista e outros Escritos, Publicações D. Quixote.
1. Como podemos segundo o texto "evitar o erro positivista"?
2. Quais é segundo o texto a eficácia do critério da verificabilidade?
Exercício II
"Hume, para falar uma linguagem que não era a sua, demonstrou que contrariamente às inferências demonstrativas (que se baseiam nas regras da lógica dedutiva) as inferências não demonstrativas (ou indutivas), nomeadamente aquelas cujas premissas descrevem estados de coisas observadas e a conclusão um estado de coisas inobservado, não preservam a verdade das suas premissas: se as premissas de uma inferência indutiva são verdadeiras, a conclusão não é automaticamente verdadeira.
Do facto de todos os corvos observados serem negros, não se segue que todos os corvos observados e inobservados sejam negros. Por outras palavras, a indução não tem justificação lógica. Esta conclusão é o ponto de partida da moderna filosofia das ciências. Desta primeira conclusão, Hume tirou uma segunda: a saber, que as nossas crenças baseadas sobre inferências não demonstrativas são irracionais ou insensatas. Esta segunda tese não pode ser deduzida da primeira a não ser que se adopte uma premissa suplementar que podemos qualificar de «dedutivista», segundo a qual qualquer inferência não demonstrativa e irracional ou insensata.
Karl Popper é, entre os filósofos contemporâneos, o principal partidário da segunda conclusão de Hume e portanto da premissa dedutivista. Segundo ele, nós raciocinamos sempre de maneira dedutiva, nunca de maneira indutiva. A partir de uma hipótese tendo a forma de enunciado tendo a forma de um enunciado universalmente quantificado (por exemplo, «Todos os corvos são negros».), pode – se predizer – se que o próximo corvo que observamos será negro. Se ele for amarelo – limão, então pode inferir – se (…), que a nossa hipótese foi refutada, na condição de não estipular que o volátil amarelo limão não poderia, em virtude da sua cor, ser um corvo. Daí conclui que, se temo razões para considerar uma teoria como falsa – basta para isso que ela tenha sido refutada - , em contrapartida, não temos nenhuma razão para considerar uma teoria como verdadeira, por muito abundantes que tenham sido as afirmações experimentais que ela recebeu. A metodologia negativa de Popper, pela sua insistência unilateral sobre a refutabilidade das teorias científicas, opõe – se ao positivismo lógico.
(...) A rejeição popperiana da indução tem, quanto a mim, os defeitos de premissa dedutivista. (…) Do facto de que as inferências indutivas são falíveis não concluirei nem que é preciso renunciar à indução, nem que nós não dispomos de nenhuma razão para afirmar a verdade de teorias claramente confirmadas."
P. Jacob, in A Filosofia das Ciências Hoje, Edições Fragmentos.
1. Explicite a tese fundamental defendida pelo autor.
2. Discuta, partindo do texto a importância da indução e da dedução para a formulação da verdade científica.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Locke

A contribuição de Locke para o desenvolvimento das ideais filosóficas foi ter empregado o seu talento como um "operário dos fundos, limpando o terreno e removendo parte do lixo que obstrui o caminho do conhecimento". Afirmando que tomou um lugar humilde ao lado "de mestres como o grande Huygenius e o incomparável Newton", Locke removeu o lixo que obstruía o caminho do conhecimento ao trazer para a cabeça da filosofia moderna o problema da epistemologia: como conhecemos. Deixamos a ele próprio a tarefa de investigar os limites do conhecimento para que os homens pudessem não perder a sua energia através de objectivos vãos:
"Se através desta investigação da natureza do entendimento, puder descobrir os poderes que aí residem, até onde podem alcançar, a que coisas são, em qualquer grau, adequados e onde são impotentes, penso que isso poderá ser útil para prevenir o espírito atarefado do homem a que seja mais cauteloso quando se ocupa de coisas que excedem a sua compreensão, a parar quando se encontra no extremo limite dos seus conhecimentos e a descansar numa ignorância tranquila daquelas coisas que, depois de examinadas, se descobre estarem para lá do alcance das nossas capacidades" (…)
O Ensaio inclui um ataque à perspectiva platónica das ideias inatas, segundo a qual vimos ao mundo providos de uma visão daquilo que simplesmente redescobrimos. Por exemplo, Locke fazia notar que são princípios "aos quais toda a humanidade dá? assentimento universal". O seu ponto principal de argumentação era, contudo, que não havia necessidade de afirmar impressões inatas; os homens "apenas com uso das suas faculdades naturais, podem alcançar todo o conhecimento que tem. Assim, Locke reclamava a via empírica ou natural para todo o conhecimento, contra a tentativa racionalista e sobrenatural. O saber não era impresso, de uma vez por todas, no cérebro do homem por acção de Deus, tinha que ser descoberto, pela experiência, no mundo. Este era o "caminho" da ciência do século XVII.
A teoria de Locke era, por isso, uma doutrina empirista. Defendia que a mente, na criança, está inteiramente em branco. Usou a frase "folha em branco, (tábua rasa). Locke formulou juntamente e a solução:
"Suponhamos que a mente é, por assim dizer, uma folha em branco desprovida de qualquer caracteres, sem nenhuma ideia; como vem ela a ser preenchida? Donde obtém esse vasto armazenamento que a imaginação activa e livre do homem aí gravou com uma variedade quase infinita? Donde tira ela todos os materiais da razão e do saber? A isto respondo eu, numa palavra - da EXPERIÊNCIA; é nela que todo o nosso conhecimento se funda e, em última instância, é dela própria que deriva".
O espírito, através da experiência, sofre do exterior impressões sensíveis. Estas impressões (que Locke chama, mais tarde, ideias) são depois organizadas pelo entendimento, de uma forma que Locke achou difícil de explicar, embora tenha feito uma tentativa audaciosa. Na realidade, acrescentou Locke, a experiência pode fornecer o entendimento com ideias derivadas quer da sensação quer da reflexão (isto é, "das operações internas dos nossos espíritos, percepcionadas e reflectidas por nós mesmos" (…) Com as próprias palavras de Locke: "Portanto, parece-me que o conhecimento não é senão a percepção da conexão e do acordo, ou do desacordo e mútua rejeição de qualquer das nossas ideias. Nisto somente consiste o conhecimento"
J. Bronowski, Bruce Mazlish, A Tradição Intelectual do Ocidente, Edições 70. (adaptado)
1. Explique motivo John Locke tem necessidade de "atacar" a teoria platónica das ideias.
2. Que concepção, acerca do conhecimento, está presente na convicção, de que a mente na criança está totalmente em branco.
3. Explicite os princípios filosóficos que subjazem a essa concepção.
Retirado do site Netprof.
"Se através desta investigação da natureza do entendimento, puder descobrir os poderes que aí residem, até onde podem alcançar, a que coisas são, em qualquer grau, adequados e onde são impotentes, penso que isso poderá ser útil para prevenir o espírito atarefado do homem a que seja mais cauteloso quando se ocupa de coisas que excedem a sua compreensão, a parar quando se encontra no extremo limite dos seus conhecimentos e a descansar numa ignorância tranquila daquelas coisas que, depois de examinadas, se descobre estarem para lá do alcance das nossas capacidades" (…)
O Ensaio inclui um ataque à perspectiva platónica das ideias inatas, segundo a qual vimos ao mundo providos de uma visão daquilo que simplesmente redescobrimos. Por exemplo, Locke fazia notar que são princípios "aos quais toda a humanidade dá? assentimento universal". O seu ponto principal de argumentação era, contudo, que não havia necessidade de afirmar impressões inatas; os homens "apenas com uso das suas faculdades naturais, podem alcançar todo o conhecimento que tem. Assim, Locke reclamava a via empírica ou natural para todo o conhecimento, contra a tentativa racionalista e sobrenatural. O saber não era impresso, de uma vez por todas, no cérebro do homem por acção de Deus, tinha que ser descoberto, pela experiência, no mundo. Este era o "caminho" da ciência do século XVII.
A teoria de Locke era, por isso, uma doutrina empirista. Defendia que a mente, na criança, está inteiramente em branco. Usou a frase "folha em branco, (tábua rasa). Locke formulou juntamente e a solução:
"Suponhamos que a mente é, por assim dizer, uma folha em branco desprovida de qualquer caracteres, sem nenhuma ideia; como vem ela a ser preenchida? Donde obtém esse vasto armazenamento que a imaginação activa e livre do homem aí gravou com uma variedade quase infinita? Donde tira ela todos os materiais da razão e do saber? A isto respondo eu, numa palavra - da EXPERIÊNCIA; é nela que todo o nosso conhecimento se funda e, em última instância, é dela própria que deriva".
O espírito, através da experiência, sofre do exterior impressões sensíveis. Estas impressões (que Locke chama, mais tarde, ideias) são depois organizadas pelo entendimento, de uma forma que Locke achou difícil de explicar, embora tenha feito uma tentativa audaciosa. Na realidade, acrescentou Locke, a experiência pode fornecer o entendimento com ideias derivadas quer da sensação quer da reflexão (isto é, "das operações internas dos nossos espíritos, percepcionadas e reflectidas por nós mesmos" (…) Com as próprias palavras de Locke: "Portanto, parece-me que o conhecimento não é senão a percepção da conexão e do acordo, ou do desacordo e mútua rejeição de qualquer das nossas ideias. Nisto somente consiste o conhecimento"
J. Bronowski, Bruce Mazlish, A Tradição Intelectual do Ocidente, Edições 70. (adaptado)
1. Explique motivo John Locke tem necessidade de "atacar" a teoria platónica das ideias.
2. Que concepção, acerca do conhecimento, está presente na convicção, de que a mente na criança está totalmente em branco.
3. Explicite os princípios filosóficos que subjazem a essa concepção.
Retirado do site Netprof.
Hume

Hume nasceu em Edimburgo e frequentou a universidade local. Inicialmente, pensou em seguir a carreira jurídica mas, em suas palavras, chegou a uma "aversão intransponível a tudo, excepto ao caminho da filosofia e a aprendizagem em geral". Sua mãe, que enviuvara quando David era criança, ficou assustada com a decisão, mas Lord Kames , um familiar e protector de Hume , tranquilizou-a.
Dedicou-se aos estudos, como auto-didacta , em França, onde completou a sua obra-prima, Tratado da Natureza Humana, com apenas 26 anos. Apesar de muitos académicos considerarem hoje o Tratado sua maior obra e um dos livros mais importantes da História da Filosofia, o público inglês não se entusiasmou imediatamente. Hume tinha esperado um ataque à publicação e preparava uma defesa apaixonada. Para sua surpresa, a publicação do livro passou despercebida, e sobre esta falta de reacção do público, em 1739-40, escreveu: "saiu da editora morto à nascença".
Após ter concluído que o problema do Tratado era o estilo e não o conteúdo, ele encurtou o texto e deu-lhe um estilo mais ligeiro, renovou algum do material para consumo mais popular: esforço que deu existência ao Investigação Sobre o Entendimento Humano. Também não foi muito bem sucedido com o público, embora melhor do que ocorrera com o Tratado. Foi a leitura desta Investigação que teria feito Kant- então um desconhecido , já de idade avançada e sem qualquer obra relevante - afirmar que o fez acordar do seu "sono dogmático".
No entanto, para além dos seus trabalhos no âmbito da filosofia, Hume ascendeu à fama literária como ensaísta e historiador, com seu célebre História da Inglaterra.
Hume viveu a última década da sua vida em Edimburgo, no novo aldeamento de New Town .
pensamento de Hume possui ainda relevância extraordinária na filosofia actual , com imensa influência. Eis algumas das suas principais contribuições para a filosofia:
O problema da causalidade
Quando um evento provoca um outro evento, a maioria das pessoas pensa que estamos conscientes de uma conexão entre os dois que faz com que o segundo siga o primeiro.
Hume questionou esta crença, notando que se é óbvio que nos apercebemos de dois eventos, não temos necessariamente de aperceber uma conexão entre os dois. E como havemos nós de nos aperceber desta misteriosa conexão senão através da nossa percepção ?
Hume negou que possamos fazer qualquer idéia de causalidade que não através do seguinte: Quando vemos que dois eventos sempre ocorrem conjuntamente, tendemos a criar uma expectativa de que quando o primeiro ocorre, o segundo seguirá.
Esta conjunção constante e a expectativa dela são tudo o que podemos saber da causalidade, e tudo o que a nossa ideia de causalidade pode inferir. Uma tal conceptualização rouba à causalidade a sua força e alguns Humeanos posteriores, como Russell , desmentiram a noção de causalidade no geral como algo de parecido com a superstição.
Mas isto é uma violação do senso-comum . O problema da causalidade: O que justifica a nossa crença numa conexão causal? Que tipo de conexão podemos perceber? É um problema que não tem solução unânime. A perspectiva de Hume parece ser que nós temos uma crença na causalidade semelhante a um instinto, que se baseia no desenvolvimento dos hábitos na nossa mente. Uma crença que não pode ser eliminada mas que também não pode ser provada verdadeira por nenhum argumento, dedutivo ou indutivo, tal como na questão da nossa crença na realidade do mundo exterior.
Dedicou-se aos estudos, como auto-didacta , em França, onde completou a sua obra-prima, Tratado da Natureza Humana, com apenas 26 anos. Apesar de muitos académicos considerarem hoje o Tratado sua maior obra e um dos livros mais importantes da História da Filosofia, o público inglês não se entusiasmou imediatamente. Hume tinha esperado um ataque à publicação e preparava uma defesa apaixonada. Para sua surpresa, a publicação do livro passou despercebida, e sobre esta falta de reacção do público, em 1739-40, escreveu: "saiu da editora morto à nascença".
Após ter concluído que o problema do Tratado era o estilo e não o conteúdo, ele encurtou o texto e deu-lhe um estilo mais ligeiro, renovou algum do material para consumo mais popular: esforço que deu existência ao Investigação Sobre o Entendimento Humano. Também não foi muito bem sucedido com o público, embora melhor do que ocorrera com o Tratado. Foi a leitura desta Investigação que teria feito Kant- então um desconhecido , já de idade avançada e sem qualquer obra relevante - afirmar que o fez acordar do seu "sono dogmático".
No entanto, para além dos seus trabalhos no âmbito da filosofia, Hume ascendeu à fama literária como ensaísta e historiador, com seu célebre História da Inglaterra.
Hume viveu a última década da sua vida em Edimburgo, no novo aldeamento de New Town .
pensamento de Hume possui ainda relevância extraordinária na filosofia actual , com imensa influência. Eis algumas das suas principais contribuições para a filosofia:
O problema da causalidade
Quando um evento provoca um outro evento, a maioria das pessoas pensa que estamos conscientes de uma conexão entre os dois que faz com que o segundo siga o primeiro.
Hume questionou esta crença, notando que se é óbvio que nos apercebemos de dois eventos, não temos necessariamente de aperceber uma conexão entre os dois. E como havemos nós de nos aperceber desta misteriosa conexão senão através da nossa percepção ?
Hume negou que possamos fazer qualquer idéia de causalidade que não através do seguinte: Quando vemos que dois eventos sempre ocorrem conjuntamente, tendemos a criar uma expectativa de que quando o primeiro ocorre, o segundo seguirá.
Esta conjunção constante e a expectativa dela são tudo o que podemos saber da causalidade, e tudo o que a nossa ideia de causalidade pode inferir. Uma tal conceptualização rouba à causalidade a sua força e alguns Humeanos posteriores, como Russell , desmentiram a noção de causalidade no geral como algo de parecido com a superstição.
Mas isto é uma violação do senso-comum . O problema da causalidade: O que justifica a nossa crença numa conexão causal? Que tipo de conexão podemos perceber? É um problema que não tem solução unânime. A perspectiva de Hume parece ser que nós temos uma crença na causalidade semelhante a um instinto, que se baseia no desenvolvimento dos hábitos na nossa mente. Uma crença que não pode ser eliminada mas que também não pode ser provada verdadeira por nenhum argumento, dedutivo ou indutivo, tal como na questão da nossa crença na realidade do mundo exterior.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
O empirismo

O empirismo (de empeiria = experiência) opõe à tese do racionalismo (segundo a qual o pensamento, a razão, é a verdadeira fonte de conhecimento), a antítese que diz: a única fonte do conhecimento humano é a experiência. Na opinião do empirismo, não há qualquer património a priori da razão. A consciência cognoscente não tira os seus conteúdos da razão; tira-os exclusivamente da experiência. O espírito humano está por natureza vazio; é uma tábua rasa, uma folha em branco onde a experiência escreve. Todos os nossos conceitos, incluindo os mais gerais e abstractos, procedem da experiência. Enquanto o racionalismo se deixa levar por uma ideia determinada, por uma ideia de conhecimento, o empirismo parte dos factos concretos. Para justificar a sua posição, recorre à evolução do pensamento e do conhecimento humanos. Esta evolução prova, na opinião do empirismo, a alta importância da experiência na produção do conhecimento. A criança começa por ter percepções concretas. Com base nessas percepções chega, paulatinamente, a formar representações gerais e conceitos. Estes nascem, por conseguinte, organicamente da experiência. Não se encontra nada semelhante a esses conceitos que existem completos no espírito ou se formam com total independência da experiência. A experiência apresenta-se, pois, como a única fonte do conhecimento.
Enquanto os racionalistas procedem da matemática a maior parte das vezes, a história do empirismo revela que os seus defensores procedem quase sempre das ciências naturais. Isto é compreensível. Nas ciências naturais a experiência representa o papel decisivo. Nelas trata-se sobretudo de comprovar exactamente os factos mediante uma cuidadosa observação. O investigador está completamente entregue à experiência. É muito natural que quem trabalha de preferência ou exclusivamente com este método das ciências naturais, tenha tendência para de antemão colocar o factor empírico sobre o racional. Enquanto que o filósofo de orientação matemática chega facilmente a considerar o pensamento como a fonte única do conhecimento, o filósofo que vem das ciências naturais tenderá para considerar a experiência como fonte e base de todo o conhecimento humano.
J. Hessen, Teoria do Conhecimento, Almedina
Enquanto os racionalistas procedem da matemática a maior parte das vezes, a história do empirismo revela que os seus defensores procedem quase sempre das ciências naturais. Isto é compreensível. Nas ciências naturais a experiência representa o papel decisivo. Nelas trata-se sobretudo de comprovar exactamente os factos mediante uma cuidadosa observação. O investigador está completamente entregue à experiência. É muito natural que quem trabalha de preferência ou exclusivamente com este método das ciências naturais, tenha tendência para de antemão colocar o factor empírico sobre o racional. Enquanto que o filósofo de orientação matemática chega facilmente a considerar o pensamento como a fonte única do conhecimento, o filósofo que vem das ciências naturais tenderá para considerar a experiência como fonte e base de todo o conhecimento humano.
J. Hessen, Teoria do Conhecimento, Almedina
1. Explique o alcance da seguinte afirmação: "Na opinião do empirismo, não há qualquer património a priori da razão. A consciência cognoscente não tira os seus conteúdos da razão; tira-os exclusivamente da experiência".
2. Discuta a cumplicidade existente entre o empirismo e as ciências naturais.
3. Produza um texto onde torne evidentes as principais diferenças existentes entre a concepção empirista e o racionalismo filosófico.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Textos de Descartes
1. Dúvida
"[...] admiti anteriormente como absolutamente certas e manifestas muitas coisas que, entretanto, depreendi depois serem duvidosas. Que coisas foram estas? A Terra, o Céu, os Astros, e todas as coisas que recebi pelos sentidos. Mas o que compreendia eu delas, com clareza? As próprias ideias ou pensamentos de tais coisas, que se apresentavam ao meu espírito. E ainda agora não contesto que estas ideias estão de facto em mim. [...] Mas que mais? Quando considerava nos temas da Aritmética e da Geometria coisas absolutamente simples e fáceis, como dois mais três são cinco, e equivalentes, não as intuí pelo menos bastante claramente para afirmar que são verdadeiras? Posteriormente, só fiz o juízo de que se devia duvidar delas porque me vinha ao espírito que possivelmente um certo Deus podia ter-me dado uma tal natureza que eu também me enganasse sobre aquelas coisas que parecem mais manifestas. Mas sempre que esta opinião sobre o poder supremo de Deus, concebida anteriormente, me ocorre, não posso deixar de confessar que a ele lhe é fácil, se o quiser, conseguir que eu erre também naquilo que intuo do modo mais evidente pelos olhos do espírito."
2. Cogito
"[...] persuadi-me que não havia absolutamente nada no mundo, nenhum céu, nenhuma terra, nenhuns espíritos, nenhuns corpos. Não me persuadi também de que eu próprio não existia? Pelo contrário, eu existia com certeza se me persuadi de alguma coisa. Mas há um enganador, não sei qual, sumamente poderoso, sumamente astuto, que me engana sempre com a sua indústria. No entanto, não há dúvida de que também existo, se me engana; que me engane quanto possa, não conseguirá nunca que eu seja nada enquanto eu pensar que sou alguma coisa. De maneira que, depois de ter pesado e repesado muito bem tudo isto, deve por último concluir-se que esta proposição Eu sou, eu existo, sempre que proferida por mim ou concebida pelo meu espírito, é necessariamente verdadeira."
3. Deus
a) " ... é manifesto, pela luz natural, que deve haver pelo menos tanta realidade objectiva na causa ... como no efeito da mesma causa. Porque, pergunto, de onde pode o efeito tirar a sua realidade, a não ser da causa? E de que modo poderia ela conferir-lha se não a possuísse também? Daqui se segue que nem algo pode provir do nada, nem também aquilo que é mais perfeito, isto é, que contém em si mais realidade, daquilo que contém menos perfeição."
b) "Quanto ao que é claro e distinto nas ideias das coisas corpóreas, parece-me que alguma coisa poderia ser tirada da ideia de mim mesmo ... De maneira que só resta a ideia de Deus, na qual se deve considerar se há alguma coisa que não pudesse provir de mim próprio. Pelo nome de Deus compreendo uma certa substância infinita, independente, sumamente inteligente, omnipotente, e pela qual foram criados quer eu mesmo, quer tudo o resto que existe, se é que alguma coisa existe. O que, sem dúvida, é tão notável que quanto mais cuidadosamente atento nessa ideia tanto menos parece que eu possa tirar só de mim a sua origem. E, por conseguinte, do atrás dito deve concluir-se que Deus existe necessariamente. Porque, embora pela razão de eu ser uma substância esteja em mim uma certa ideia de substância, no entanto, como sou finito, não seria a ideia de uma substância infinita, a não ser que procedesse de outra substância que fosse realmente infinita."
c) "Agora parece que enxergo um certo caminho pelo qual se é conduzido desta contemplação do Deus verdadeiro ... ao conhecimento de todas as outras coisas. Em primeiro lugar, reconheço que é impossível que ele me engane alguma vez, porque em toda a falácia ou logro se descobre alguma imperfeição. E embora poder enganar pareça ser uma certa prova de subtileza de espírito ou de poder; querer enganar atesta, sem dúvida nenhuma, malícia ou fraqueza de espírito: o que, por isso, não pertence a Deus. A seguir, verifico que há em mim uma certa faculdade de julgar que, certamente, recebi de Deus, como todas as restantes coisas que há em mim; e, porque ele não me quer enganar, com certeza não ma deu tal que, quando rectamente a uso, possa errar alguma vez."
4. Ideias inatas
"E agora, depois de ter notado o que se deve evitar e o que se deve fazer para atingir a verdade, parece-me que nada é mais urgente do que emergir das dúvidas em que caí nos dias precedentes e ver se posso conhecer algo de certo sobre as coisas materiais. E, na verdade, antes de inquirir se tais coisas existem for a de mim, devo considerar as ideias delas, na medida em que estão no meu pensamento, e ver quais são as distintas e quais são as confusas. Assim, imagino distintamente a quantidade, que os filósofos chamam vulgarmente quantidade contínua, ou seja, a extensão desta quantidade ou, melhor, de uma coisa maior ou menor, segundo o comprimento e largura e a profundidade. Nela posso contar várias partes e atribuir-lhes toda a espécie de grandezas, figuras, situações e movimentos locais, e a estes movimentos quaisquer durações. E não conheço apenas perfeitamente e com evidência estas coisas, assim genericamente consideradas. Além disso, se presto atenção, concebo também inúmeras particularidades sobre as figuras, o número, o movimento, e coisas semelhantes, cuja verdade é tão clara e tão consentânea com a minha natureza que, logo que as começo a descobrir, parece-me que não aprendo qualquer coisa de novo, mas que, ao contrário, me recordo do que já anteriormente sabia: ou seja, que presto atenção, pela primeira vez, a coisas que há muito tempo já estavam dentro de mim, sem que eu antes tivesse dirigido para elas a minha atenção."
DESCARTES, Meditações sobre a Filosofia Primeira
"[...] admiti anteriormente como absolutamente certas e manifestas muitas coisas que, entretanto, depreendi depois serem duvidosas. Que coisas foram estas? A Terra, o Céu, os Astros, e todas as coisas que recebi pelos sentidos. Mas o que compreendia eu delas, com clareza? As próprias ideias ou pensamentos de tais coisas, que se apresentavam ao meu espírito. E ainda agora não contesto que estas ideias estão de facto em mim. [...] Mas que mais? Quando considerava nos temas da Aritmética e da Geometria coisas absolutamente simples e fáceis, como dois mais três são cinco, e equivalentes, não as intuí pelo menos bastante claramente para afirmar que são verdadeiras? Posteriormente, só fiz o juízo de que se devia duvidar delas porque me vinha ao espírito que possivelmente um certo Deus podia ter-me dado uma tal natureza que eu também me enganasse sobre aquelas coisas que parecem mais manifestas. Mas sempre que esta opinião sobre o poder supremo de Deus, concebida anteriormente, me ocorre, não posso deixar de confessar que a ele lhe é fácil, se o quiser, conseguir que eu erre também naquilo que intuo do modo mais evidente pelos olhos do espírito."
2. Cogito
"[...] persuadi-me que não havia absolutamente nada no mundo, nenhum céu, nenhuma terra, nenhuns espíritos, nenhuns corpos. Não me persuadi também de que eu próprio não existia? Pelo contrário, eu existia com certeza se me persuadi de alguma coisa. Mas há um enganador, não sei qual, sumamente poderoso, sumamente astuto, que me engana sempre com a sua indústria. No entanto, não há dúvida de que também existo, se me engana; que me engane quanto possa, não conseguirá nunca que eu seja nada enquanto eu pensar que sou alguma coisa. De maneira que, depois de ter pesado e repesado muito bem tudo isto, deve por último concluir-se que esta proposição Eu sou, eu existo, sempre que proferida por mim ou concebida pelo meu espírito, é necessariamente verdadeira."
3. Deus
a) " ... é manifesto, pela luz natural, que deve haver pelo menos tanta realidade objectiva na causa ... como no efeito da mesma causa. Porque, pergunto, de onde pode o efeito tirar a sua realidade, a não ser da causa? E de que modo poderia ela conferir-lha se não a possuísse também? Daqui se segue que nem algo pode provir do nada, nem também aquilo que é mais perfeito, isto é, que contém em si mais realidade, daquilo que contém menos perfeição."
b) "Quanto ao que é claro e distinto nas ideias das coisas corpóreas, parece-me que alguma coisa poderia ser tirada da ideia de mim mesmo ... De maneira que só resta a ideia de Deus, na qual se deve considerar se há alguma coisa que não pudesse provir de mim próprio. Pelo nome de Deus compreendo uma certa substância infinita, independente, sumamente inteligente, omnipotente, e pela qual foram criados quer eu mesmo, quer tudo o resto que existe, se é que alguma coisa existe. O que, sem dúvida, é tão notável que quanto mais cuidadosamente atento nessa ideia tanto menos parece que eu possa tirar só de mim a sua origem. E, por conseguinte, do atrás dito deve concluir-se que Deus existe necessariamente. Porque, embora pela razão de eu ser uma substância esteja em mim uma certa ideia de substância, no entanto, como sou finito, não seria a ideia de uma substância infinita, a não ser que procedesse de outra substância que fosse realmente infinita."
c) "Agora parece que enxergo um certo caminho pelo qual se é conduzido desta contemplação do Deus verdadeiro ... ao conhecimento de todas as outras coisas. Em primeiro lugar, reconheço que é impossível que ele me engane alguma vez, porque em toda a falácia ou logro se descobre alguma imperfeição. E embora poder enganar pareça ser uma certa prova de subtileza de espírito ou de poder; querer enganar atesta, sem dúvida nenhuma, malícia ou fraqueza de espírito: o que, por isso, não pertence a Deus. A seguir, verifico que há em mim uma certa faculdade de julgar que, certamente, recebi de Deus, como todas as restantes coisas que há em mim; e, porque ele não me quer enganar, com certeza não ma deu tal que, quando rectamente a uso, possa errar alguma vez."
4. Ideias inatas
"E agora, depois de ter notado o que se deve evitar e o que se deve fazer para atingir a verdade, parece-me que nada é mais urgente do que emergir das dúvidas em que caí nos dias precedentes e ver se posso conhecer algo de certo sobre as coisas materiais. E, na verdade, antes de inquirir se tais coisas existem for a de mim, devo considerar as ideias delas, na medida em que estão no meu pensamento, e ver quais são as distintas e quais são as confusas. Assim, imagino distintamente a quantidade, que os filósofos chamam vulgarmente quantidade contínua, ou seja, a extensão desta quantidade ou, melhor, de uma coisa maior ou menor, segundo o comprimento e largura e a profundidade. Nela posso contar várias partes e atribuir-lhes toda a espécie de grandezas, figuras, situações e movimentos locais, e a estes movimentos quaisquer durações. E não conheço apenas perfeitamente e com evidência estas coisas, assim genericamente consideradas. Além disso, se presto atenção, concebo também inúmeras particularidades sobre as figuras, o número, o movimento, e coisas semelhantes, cuja verdade é tão clara e tão consentânea com a minha natureza que, logo que as começo a descobrir, parece-me que não aprendo qualquer coisa de novo, mas que, ao contrário, me recordo do que já anteriormente sabia: ou seja, que presto atenção, pela primeira vez, a coisas que há muito tempo já estavam dentro de mim, sem que eu antes tivesse dirigido para elas a minha atenção."
DESCARTES, Meditações sobre a Filosofia Primeira
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Descartes

"Esta dúvida radical é a cruz do método cartesiano. Como mostram a segunda e quarta regras, o seu método é analítico: procede pela divisão das coisas e dos pensamentos. E o instrumento de que serve para os dividir é fornecido pela primeira regra: "nada aceitar como verdadeiro" até o espírito, passo a passo, alcançar os elementos divididos, esses fundamentos "dos quais não tenha motivos para duvidar".
O cerne do pensamento cartesiano é expresso numa frase que ele usou frequentemente, (…) devemos duvidar de tudo. Pode parecer um conselho bastante cínico da parte de um homem religioso; e, com efeito não o tornou popular aos olhos dos homens religiosos. Quando Descartes usou o método da dúvida, chegou a uma posição religiosa, de algum modo paradoxalmente. Mas o seu objectivo ao usar o método foi sempre claro. Contrariamente a Michel Montaigne e outros cépticos contra quem escreveu, Descartes não estava interessado na atitude então na moda de duvidar pela própria dúvida. O seu fito, era, por meio da dúvida, descer até ao que pode ser encarado como certeza. Este era procedimento científico essencialmente usado pelos físicos seiscentistas, para os quais a dúvida representava um papel constante: "não aceitar nada como verdadeiro" até estar estabelecido, tanto quanto possível para lá de qualquer dúvida. (…)
Se se duvidar de tudo, que é que permanece por detrás da dúvida? Apenas o facto de duvidar. Isto pode parecer um expediente filosófico: mas, no fundo, está, por certo correcto. Não se pode duvidar sem estar a duvidar, isto é, sem ser mais do que o feixe de impressões sensíveis de que está a duvidar. Porque se se duvida, não se aceitam as impressões dos sentidos tal como se recebem; o universo não é já algo exterior imprimindo em nós impessoalmente as suas marcas. A relação ao universo torna-se pessoal; pelo processo da dúvida, exploramo-lo e reconstruímo-lo. E exploramo-nos a nós próprios, provamo-nos e fazemo-nos. Só o eu resiste à dúvida e a dúvida cria o eu.
É este pensamento que Descartes formulou numa das frases mais famosas da filosofia: (…) Penso logo existo." J. Bronowski, Bruce Mazlish, A Tradição Intelectual do Ocidente, Edições 70.
1. Explicite o significado da seguinte afirmação: " esta dúvida radical é a cruz do método cartesiano."
2. Torne evidente, fundamentando, o alcance filosófico da dúvida elaborada por Descartes.
Retirado do site Netprof.
O cerne do pensamento cartesiano é expresso numa frase que ele usou frequentemente, (…) devemos duvidar de tudo. Pode parecer um conselho bastante cínico da parte de um homem religioso; e, com efeito não o tornou popular aos olhos dos homens religiosos. Quando Descartes usou o método da dúvida, chegou a uma posição religiosa, de algum modo paradoxalmente. Mas o seu objectivo ao usar o método foi sempre claro. Contrariamente a Michel Montaigne e outros cépticos contra quem escreveu, Descartes não estava interessado na atitude então na moda de duvidar pela própria dúvida. O seu fito, era, por meio da dúvida, descer até ao que pode ser encarado como certeza. Este era procedimento científico essencialmente usado pelos físicos seiscentistas, para os quais a dúvida representava um papel constante: "não aceitar nada como verdadeiro" até estar estabelecido, tanto quanto possível para lá de qualquer dúvida. (…)
Se se duvidar de tudo, que é que permanece por detrás da dúvida? Apenas o facto de duvidar. Isto pode parecer um expediente filosófico: mas, no fundo, está, por certo correcto. Não se pode duvidar sem estar a duvidar, isto é, sem ser mais do que o feixe de impressões sensíveis de que está a duvidar. Porque se se duvida, não se aceitam as impressões dos sentidos tal como se recebem; o universo não é já algo exterior imprimindo em nós impessoalmente as suas marcas. A relação ao universo torna-se pessoal; pelo processo da dúvida, exploramo-lo e reconstruímo-lo. E exploramo-nos a nós próprios, provamo-nos e fazemo-nos. Só o eu resiste à dúvida e a dúvida cria o eu.
É este pensamento que Descartes formulou numa das frases mais famosas da filosofia: (…) Penso logo existo." J. Bronowski, Bruce Mazlish, A Tradição Intelectual do Ocidente, Edições 70.
1. Explicite o significado da seguinte afirmação: " esta dúvida radical é a cruz do método cartesiano."
2. Torne evidente, fundamentando, o alcance filosófico da dúvida elaborada por Descartes.
Retirado do site Netprof.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
O racionalismo

"A posição epistemológica que vê no pensamento, na razão, a fonte principal do conhecimento humano, chama-se racionalismo (de ratio = razão). Segundo ele, um conhecimento só merece na realidade este nome quando é logicamente necessário e universalmente válido. Quando a nossa razão julga que uma coisa tem que ser assim e que não pode ser de outro modo, que tem de ser assim, portanto, sempre e em todas as partes, então, e só então, nos encontramos ante um verdadeiro conhecimento, na opinião do racionalismo. Um conhecimento desse tipo apresenta-se-nos, por exemplo, quando formulamos o juízo "o todo é maior do que a parte", ou o juízo "todos os corpos são extensos". Em ambos os casos vemos com evidência que tem de ser assim e que a razão se contradizia a si mesma se quisesse sustentar o contrário. E porque tem de ser assim, é também sempre e em todas as partes assim. Estes juízos possuem, pois, uma necessidade lógica e uma validade universal rigorosa.
Pelo contrário, sucede uma coisa muito diferente com o juízo "todos os corpos são pesados", ou no juízo "a água ferve a 100 graus". Neste caso só podemos ajuizar que é assim, mas não que tem de ser assim. É perfeitamente concebível que a água ferva a uma temperatura inferior ou superior; e também não significa uma contradição interna representar-se um corpo que não possua peso, pois a nota do peso não está contida no conceito do corpo. Estes juízos não têm, pois, necessidade lógica. E mesmo assim falta-lhes a rigorosa validade universal. Podemos julgar unicamente que a água ferve a 100 graus e que os corpos são pesados, até onde podemos comprová-lo. Estes juízos só são válidos, pois, dentro de limites determinados. A razão disto é que, nestes juízos, encontramo-nos limitados à experiência. Isto não acontece nos juízos primeiramente citados. Formulamos o juízo "todos os corpos são extensos" representando o conceito de corpo e descobrindo nele a nota da extensão. Este juízo não se funda, pois, em qualquer experiência mas sim no pensamento. Daqui resulta, portanto, que os juízos fundados no pensamento, os juízos que procedem da razão, possuem necessidade lógica e validade universal; os outros, pelo contrário, não a possuem. Todo o verdadeiro conhecimento se funda deste modo – assim conclui o racionalismo –, no pensamento. Este é, por conseguinte, a verdadeira fonte e base do conhecimento humano.
Uma forma determinada do conhecimento serviu evidentemente de modelo à interpretação racionalista do conhecimento. Não é difícil dizer qual é: é o conhecimento matemático. Este é, com efeito, um conhecimento predominantemente conceptual e dedutivo. Na geometria, por exemplo, todos os conhecimentos derivam de alguns conceitos e axiomas supremos. O pensamento impera com absoluta independência de toda a experiência, seguindo somente as suas próprias leis. Todos os juízos que formula, distinguem-se, além disso, pelas características da necessidade lógica e da validade universal. Pois bem; quando se interpreta e concebe todo o conhecimento humano em relação a esta forma de conhecimento, chega-se ao racionalismo."
J. Hessen, Teoria do Conhecimento, Almedina
Pelo contrário, sucede uma coisa muito diferente com o juízo "todos os corpos são pesados", ou no juízo "a água ferve a 100 graus". Neste caso só podemos ajuizar que é assim, mas não que tem de ser assim. É perfeitamente concebível que a água ferva a uma temperatura inferior ou superior; e também não significa uma contradição interna representar-se um corpo que não possua peso, pois a nota do peso não está contida no conceito do corpo. Estes juízos não têm, pois, necessidade lógica. E mesmo assim falta-lhes a rigorosa validade universal. Podemos julgar unicamente que a água ferve a 100 graus e que os corpos são pesados, até onde podemos comprová-lo. Estes juízos só são válidos, pois, dentro de limites determinados. A razão disto é que, nestes juízos, encontramo-nos limitados à experiência. Isto não acontece nos juízos primeiramente citados. Formulamos o juízo "todos os corpos são extensos" representando o conceito de corpo e descobrindo nele a nota da extensão. Este juízo não se funda, pois, em qualquer experiência mas sim no pensamento. Daqui resulta, portanto, que os juízos fundados no pensamento, os juízos que procedem da razão, possuem necessidade lógica e validade universal; os outros, pelo contrário, não a possuem. Todo o verdadeiro conhecimento se funda deste modo – assim conclui o racionalismo –, no pensamento. Este é, por conseguinte, a verdadeira fonte e base do conhecimento humano.
Uma forma determinada do conhecimento serviu evidentemente de modelo à interpretação racionalista do conhecimento. Não é difícil dizer qual é: é o conhecimento matemático. Este é, com efeito, um conhecimento predominantemente conceptual e dedutivo. Na geometria, por exemplo, todos os conhecimentos derivam de alguns conceitos e axiomas supremos. O pensamento impera com absoluta independência de toda a experiência, seguindo somente as suas próprias leis. Todos os juízos que formula, distinguem-se, além disso, pelas características da necessidade lógica e da validade universal. Pois bem; quando se interpreta e concebe todo o conhecimento humano em relação a esta forma de conhecimento, chega-se ao racionalismo."
J. Hessen, Teoria do Conhecimento, Almedina
1. O texto de J. Hessen torna evidente as principais características do racionalismo. Seleccione do mesmo, cinco adjectivos que tornem evidente a especificidade desta corrente filosófica.
2. Produza um pequeno texto onde evidencie a cumplicidade entre o racionalismo e o pensamento matemático e geométrico.
(Retirado do site Netprof)
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