sexta-feira, 31 de julho de 2009

Até sempre ...

Foram dois anos espectaculares em que vos vi crescer, amadurecer, brilhar ... foram o meu porto de abrigo nas horas mais difíceis ... provavelmente no próximo ano não estarei convosco ... por isso o meu muito obrigado por todos estes momentos, percorram o vosso caminho, nunca desistam, sejam e lutem para serem felizes e quero que saibam que isto não é um Adeus, mas um Até sempre porque ficarão eternamente no meu coração e na minha alma!

domingo, 22 de março de 2009

Ciência e Dogmatismo

Os defensores do cientismo, aliás actualmente em regressão perante as dificuldades reais da ciência, profetizam o triunfo dos métodos positivos chamados a resolver todos os problemas humanos. Nesta perspectiva messiânica, a ciência devia libertar a humanidade de qualquer obediência e formular os valores espirituais em termos definitivos. O grande sábio que foi Berthelot exprimia, sobre este assunto, as convicções do final do século XIX. A ciência, escrevia ele, "reclama hoje, simultaneamente, a direcção material e a direcção moral das sociedades. Sob o seu impulso, a civilização moderna avança cada vez mais rapidamente. (...) A ciência tudo domina: por si só ela presta serviços definitivos. Nenhum homem, nenhuma instituição, terá doravante uma autoridade durável, se não se conformar os seus ensinamentos. Esta afirmação dogmática de um processo ligado ao desenvolvimento da ciência parece-nos, hoje, pertencer às fantasias de uma ingénua e dourada lenda científica, que ninguém ousaria jamais tomar por sua conta. A ciência instrui-nos através de múltiplos desastres. As promessas da ciência são também ameaças. Em todo o caso, ela é incapaz de economizar qualquer escolha que se coloque à comunidade humana. Ela não anula nem a liberdade nem a responsabilidade da pessoa."
Georges Gusdorf, Mythe et Métaphysique; Flammarion, Paris, 1984, p. 322.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Falsificacionismo

"Outra saída para o problema da indução, pelo menos tal como ela afecta o tema do método científico, é negar que a indução seja a base do método científico. O falsificacionismo , a filosofia da ciência desenvolvida por Karl Popper (1902-1994), entre outros, ocasiona isso mesmo. Os falsificacionistas, defendem que a perspectiva simples da ciência está errada. Os cientistas não começam por fazer observações, começam com uma teoria. As teorias científicas e as chamadas leis da natureza não aspiram à verdade: ao invés, são tentativas especulativas de oferecer uma análise de vários aspectos da natureza. São conjecturas: suposições bem informadas, concebidas para serem melhores do que as teorias anteriores. Estas conjecturas são então sujeitas a testes experimentais. Mas estes testes têm um objectivo muito específico. Não pretendem demonstrar que a conjectura é verdadeira, mas antes demonstrar que é falsa. A ciência funciona tentando falsificar teorias, e não demonstrar que são verdadeiras. Qualquer teoria que se mostre ser falsa é abandonada ou, pelo menos falsificada. A ciência progride, assim, através de conjecturas e refutações. Nunca podemos ter a certeza, em relação a qualquer teoria, que ela é absolutamente verdadeira: em princípio qualquer teoria pode ser falsificada. Esta perspectiva parece adaptar-se bem ao progresso testemunhado na história da ciência: a visão ptolomaica do universo que coloca a Terra no seu centro, foi ultrapassada pela copernicana; a física de Newton foi ultrapassada pela física de Einstein. A falsificação tem pelo menos uma grande vantagem em relação à perspectiva simples da ciência: um único caso de falsificação é suficiente para mostrar que uma teoria não é satisfatória, ao passo que por mais observações que confirmem uma teoria, nunca podem ser suficientes para nos darem cem por cento de certeza de que a teoria será confirmada por todas as observações futuras. Esta é uma característica dos enunciados universais. Se digo "Todos os cisnes são brancos", basta a observação de um único cisne presto para refutar a minha teoria. Contudo, se eu observar dois milhões de cisnes brancos o próximo cisne que observar pode muito bem ser preto: por outras palavras, a generalização é muito mais fácil de refutar do que de demonstrar."Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Lisboa, Gradiva, 1998, pp.179-180

domingo, 15 de março de 2009

A perspectiva de Popper


"Outra saída para o problema da indução, pelo menos tal como ela afecta o tema do método científico, é negar que a indução seja a base do método científico. O falsificacionismo , a filosofia da ciência desenvolvida por Karl Popper (1902-1994), entre outros, ocasiona isso mesmo. Os falsificacionistas, defendem que a perspectiva simples da ciência está errada. Os cientistas não começam por fazer observações, começam com uma teoria. As teorias científicas e as chamadas leis da natureza não aspiram à verdade: ao invés, são tentativas especulativas de oferecer uma análise de vários aspectos da natureza. São conjecturas: suposições bem informadas, concebidas para serem melhores do que as teorias anteriores. Estas conjecturas são então sujeitas a testes experimentais. Mas estes testes têm um objectivo muito específico. Não pretendem demonstrar que a conjectura é verdadeira, mas antes demonstrar que é falsa. A ciência funciona tentando falsificar teorias, e não demonstrar que são verdadeiras. Qualquer teoria que se mostre ser falsa é abandonada ou, pelo menos falsificada. A ciência progride, assim, através de conjecturas e refutações. Nunca podemos ter a certeza, em relação a qualquer teoria, que ela é absolutamente verdadeira: em princípio qualquer teoria pode ser falsificada. Esta perspectiva parece adaptar-se bem ao progresso testemunhado na história da ciência: a visão ptolomaica do universo que coloca a Terra no seu centro, foi ultrapassada pela copernicana; a física de Newton foi ultrapassada pela física de Einstein. A falsificação tem pelo menos uma grande vantagem em relação à perspectiva simples da ciência: um único caso de falsificação é suficiente para mostrar que uma teoria não é satisfatória, ao passo que por mais observações que confirmem uma teoria, nunca podem ser suficientes para nos darem cem por cento de certeza de que a teoria será confirmada por todas as observações futuras. Esta é uma característica dos enunciados universais. Se digo "Todos os cisnes são brancos", basta a observação de um único cisne preto para refutar a minha teoria. Contudo, se eu observar dois milhões de cisnes brancos o próximo cisne que observar pode muito bem ser preto: por outras palavras, a generalização é muito mais fácil de refutar do que de demonstrar." Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Lisboa, Gradiva, 1998, pp.179-180


1. Explicitar a crítica à concepção tradicional de verificação da hipótese.

2. Relembrar as diferenças entre raciocínio indutivo e raciocínio dedutivo, bem como a questão que se coloca acerca da universalidade da premissa maior do raciocínio dedutivo - como saber que "Todos os X são…"

3. Enumerar:
a) Características do falsificacionismo implícitas no texto.

b) Vantagens do falsificacionismo, segundo o autor do texto.

c) Diferenças em relação às concepções tradicionais acerca da verificação das hipóteses, expressas no texto.

d) Explicação do progresso da ciência à luz do falsificacionismo, segundo o texto.

e) Implicações do falsificacionismo na concepção de verdade.

f) Razões que levam o autor do texto a aceitar o falsificacionismo.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Raciocínio indutivo e dedutivo


"O critério de demarcação inerente à lógica indutiva - isto é, o dogma positivista do significado do sentido - equivale a exigir que todos os enunciados da ciência empírica (ou todos os enunciados com sentido) sejam susceptíveis de uma decisão definitiva com respeito à sua verdade e à sua falsidade, podemos dizer que têm de ser " decidíveis" de modo concludente. Isto quer dizer que têm de ter uma forma tal que seja logicamente possível tanto verificá-los como falsificá-los. Assim disse Schlick: (...) Um autêntico enunciado tem que ser susceptível de verificação concludente; e Waismann escreve ainda com maior claridade: Se não é possível determinar se um enunciado é verdadeiro, então carece inteiramente de sentido: pois o sentido possível de um enunciado é o método da sua verificação. Ora bem, na minha opinião, não existe nada que possa chamar-se indução. Portanto, será logicamente inadmissível a inferência de teorias a partir de enunciados singulares que estão verificados pela experiência (o que quer que seja que isto queira dizer). Assim, pois as teorias não são verificáveis empiricamente. Se queremos evitar o erro positivista que o nosso critério de demarcação elimina dos sistemas teóricos da ciência, devemos eleger um critério que nos permita admitir no domínio da ciência empírica inclusive enunciados que não podem verificar-se. Mas, certamente só admitirei um sistema entre os científicos ou empíricos se é susceptível de ser contrastado pela experiência. Estas considerações sugerem- nos que o critério de demarcação que temos de adoptar não é o da verificabilidade, mas o da falsicabilidade dos sistemas. Dito de outro modo: não exigirei que um sistema científico possa ser seleccionado, de uma vez para sempre, num sentido positivo; mas sim que seja susceptível de selecção num sentido negativo por meio de contrastes ou provas empíricas: há- de ser possível refutar pela experiência um sistema científico empírico. Karl Popper, A Responsabilidade do Cientista e outros Escritos, Publicações D. Quixote.


1. Como podemos segundo o texto "evitar o erro positivista"?

2. Quais é segundo o texto a eficácia do critério da verificabilidade?

terça-feira, 10 de março de 2009

Validade e verificabilidade das hipótese


A observação implica um corpo de precauções que levam a reflectir antes de olhar, que modificam pelo menos a primeira visão, de sorte que a primeira observação nunca é boa. A observação científica é sempre uma observação polémica; confirma ou infirma uma tese anterior, um esquema prévio, um plano de observação, mostra demonstrando, hierarquiza as aparências; transcende o imediato; reconstrói o real depois de reconstruído os seus esquemas. É claro que, quando passamos da observação à experimentação, o carácter polémico do conhecimento se torna ainda mais nítido: Então o fenómeno há-de ser escolhido, filtrado, depurado (...) Ora, os instrumentos não são outra coisa senão teorias materializadas. Do que resultam fenómenos impregnados de teoria. G. Bachelard


1. Quais os motivos que nos permitem afirmar que "a primeira observação nunca é boa"?

2. "A observação é sempre uma observação polémica"

2.1. Realce a importância do carácter polémico da observação para a construção da verdade científica.

3. "Os instrumentos não são outra coisa senão teorias materializadas"

3.1. Tendo presente este extracto, comente a importância que desempenha a teoria na elaboração do conhecimento científico.
Retirado do site Netprof.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Estatuto do conhecimento científico


TEXTO

Acredito que a teoria pelo menos alguma teoria ou expectativa rudimentar sempre vem primeiro; que ela sempre precede a observação; e que o papel fundamental das observações e dos testes experimentais é mostrar que algumas das nossas teorias são falsas e, assim, estimular-nos a produzir outras melhores. Consequentemente, afirmo que não partimos de observações, mas sempre de problemas de problemas práticos ou de uma teoria que caiu em dificuldades. Uma vez que defrontemos um problema, podemos começar a trabalhar nele. Podemos fazê-lo por meio de tentativas de duas espécies: podemos prosseguir tentando primeiro supor ou conjecturar uma solução para o nosso problema; e podemos depois tentar criticar a nossa suposição, habitualmente fraca. Às vezes, uma suposição ou uma conjectura podem suportar por certo tempo a nossa crítica e os nossos testes experimentais. Mas, via de regra, logo descobrimos que as nossas conjecturas podem ser refutadas, ou que não resolvem o nosso problema, ou que só o solucionam em parte; e verificamos que mesmo as melhores soluções aquelas capazes de resistir à crítica mais severa das mentes mais brilhantes e engenhosas logo dão origem a novas dificuldades, a novos problemas. Assim podemos dizer que o crescimento do conhecimento avança de velhos problemas para novos problemas, por meio de conjecturas e refutações. Karl Popper, Conhecimento Objectivo



1. Qual é a importância que se deve atribuir às teorias?

2. Diga em que consiste o papel das observações.

3. Refira qual a importância desempenhada pelo problema na investigação científica.



TEXTO

(...) a tentativa de tornar a ciência mais "racional" e mais precisa corre, como já vimos, o risco de a anular. A diferença entre a ciência e a metodologia, facto mais do que evidente ao longo da história, indica uma fraqueza da última, e talvez também das "leis da razão". Porque aquilo que surge como "desleixo", "caos" ou oportunismo quando referido a essas leis desempenha uma função da máxima importância no desenvolvimento dessas mesmas teorias que consideramos partes essenciais do nosso conhecimento da natureza. Esses "desvios, esses"erros", são pré-condições do progresso. Permitem ao conhecimento sobreviver no mundo complexo e difícil que habitamos, permite-nos continuarmos a ser agentes livres e felizes. Sem "caos" não há conhecimento. Sem que a razão seja repetidamente desautorizada não há progresso. As ideias que hoje formam a base da ciência só existem porque existiram no passado certas coisas como o preconceito, a imaginação, a paixão; porque essas coisas se opuseram à razão; e porque tiveram a possibilidade de seguir o seu caminho. Devemos por isso concluir que mesmo no interior da ciência a razão não pode nem deve ser autorizada a incluir tudo, tendo que ser frequentemente desrespeitada, ou eliminada, em benefício de outras instâncias. Não há uma única regra que permaneça válida em todas as circunstâncias nem qualquer instância para a qual possamos apelar a todo o momento. Paul Feyerabend, Contra o Método



1. Será um conhecimento científico um empreendimento inteiramente racional?

2. Quais os requisitos necessários para se possa falar em progresso no domínio científico?



TEXTO

O que eu achava mais impressionante e mais perigoso em certas teorias era a pretensão de elas serem 'verificadas' ou 'confirmadas' por um fluxo incessante de provas observacionais. E, na verdade, assim que se abriam os olhos, podia ver-se por toda a parte casos que constituíam verificações dessas teorias. Um marxista não era capaz de olhar para um jornal sem encontrar em todas as páginas, desde os artigos de fundo até aos anúncios, provas que constituíam verificações da luta de classes; e encontrá-las-ia sempre também (e em especial) naquilo que o jornal não dizia. E um psicanalista diria sem dúvida que todos os dias, ou até de hora a hora, estava a ver as suas teorias a serem verificadas por observações clínicas. Mas seriam essas teorias testáveis? Estariam realmente essas análises mais bem testadas do que, digamos, os horóscopos, frequentemente 'verificados' dos astrólogos? Que acontecimento, que se poderia conceber que, aos olhos dos seus aderentes, as falsificasse? Não eram todos os acontecimentos imagináveis 'verificações'? Era precisamente esse facto o facto de que essas análises batiam sempre certo, de que eram sempre verificadas que impressionava os seus aderentes. Comecei a pensar que essa aparente força era, na verdade, uma fraqueza e que todas essas 'verificações' eram demasiadamente pouco válidas para serem tomadas por argumentos. O método de procurar verificações parecia-me pouco válido parecia-me, na verdade, ser o método típico de uma pseudociência. Apercebi-me da necessidade de se distinguir, tão claramente quanto possível, este método de um outro método o método de testar uma teoria tão severamente quanto se for capaz , isto é, o método da crítica, o método de procurar casos que constituam falsificação. O método de procurar verificações não era apenas acrítico: promovia também uma atitude acrítica quer em quem expunha quer em quem lia. Ameaçava, assim, destruir a atitude da racionalidade, da argumentação crítica. Karl Popper, O Realismo e o Objectivo da Ciência



1. Deve uma teoria ser considerada científica pelo facto de ser regularmente verificada através de provas observacionais?

2. Como podemos demarcar uma teoria cientifica de uma teoria pseudocientífica?

3. Explique porque motivo o método de procura de verificações não é o mais conveniente para a ciência.

Retirado da site Netprof.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Adeus ao cientismo

Princípios considerados de fundamental importância, fundamentos sólidos, vão ser de facto profundamente abalados; até ao século XIX, a ciência assentava no princípio do determinismo, considerando que os processos da natureza consistem num rigoroso encadeamento de causas e consequências, nada acontecendo de incerto e de indeterminado na natureza, só a ignorância sendo responsável pelas incertezas. O próprio espírito de exactidão da ciência — só o que é mensurável é susceptível de estudo exacto, o objectivo da ciência é medir os fenómenos, é descrever através de números, é estabelecer relações precisas — acentua a forma da universal inteligibilidade. A estes dois princípios ainda se poderá acrescentar o princípio da continuidade — os movimentos da natureza produzem-se gradualmente: entre dois momentos considerados, entre duas posições, existem sempre outros momentos. Além de que o cientista era mais um instrumento ao serviço da natureza, orgulhava-se em vincar a sua impessoalidade, a não interacção do homem que investiga e do fenómeno investigado. O cientista do século XX é protagonista de todo um processo de revisão: em vez de certezas absolutas, uma margem de incerteza, em muitos domínios; em vez do determinismo, do encadeamento causa – efeito, a certeza de que as mais pequenas unidades de matéria e de energia só podem ser descritas em termos de probabilidade, as previsões rigorosas neste campo não passando de quimera. (...) Acentua-se cada vez mais o papel criador, a actividade do cientista, e uma dose de acaso introduz-se nas teorias científicas (...). A ordem encontrada hoje na natureza é só uma das muitas ordens possíveis. E o real deixa de ser transparente, para se tornar velado.
Isabel Marnoto, António Sérgio. Claridades e Sombras, in Revista da Historia das Ideias, Coimbra, 1983.


1. Comente os dois conceitos de ciência presentes no texto.

O que é a ciência?


Conjunto de saber definido, metodicamente interligado por princípios e leis. Por isso, também se pode dizer que a ciência é um sistema de relações. A ciência tem, portanto, por objectivo o conhecimento certo. para atingir este objectivo, emprega-se métodos adequados à natureza do objecto de cada ciência. A ciência pode designar um conhecimento teórico [matemática, por exemplo] bem como uma habilidade prática. O termo ciência pode significar mais, geralmente, o conjunto das ciências (matemática, astronomia, química, biologia, as ciências humanas...) A história das ciências revela que a matemática foi a primeira a aparecer [antiguidade grega e mesmo egípcia], e as ciências humanas, as últimas; se as considerarmos pelo seu objecto, a matemática parece ser a ciência mais simples, enquanto as ciências humanas parecem ser as mais complexas. É habitual distinguir as ciências da natureza das ciências do homem [fundadas por Dilthey, na Alemanha, e por Augusto Comte, em França]: as primeiras são "analíticas", e o seu objectivo é dar uma expressão matemática às "leis", ou relações constantes entre os fenómenos; as segundas são "compreensivas" e relevam do sentimento e não da medida objectiva. As ciências da natureza distinguem-se da Filosofia, uma vez que a sua vocação é a de conhecer a matéria, enquanto que a da Filosofia é a de conhecer o espírito (Bergson); as ciências humanas são como que o caminho entre as ciências da natureza e a Filosofia propriamente dita. Feita esta breve abordagem da ciência, registe-se que o espírito científico é a predisposição do pensamento para as ciências, isto é, para um conhecimento objectivo e universal, a que alguns denominam espírito positivo. O espírito científico recusa-se a confiar nas impressões subjectivas, na tradição (crenças, explicações teológicas ou metafísicas): identifica-se com o espírito crítico, mas aplicado a um objectivo real (os fenómenos da natureza). O seu ideal é a substituição da percepção das coisas pelo conhecimento das suas leis, isto é, as "relações constantes" entre fenómenos. As ciências não visam apenas a acumular dados. A sua principal função é explicar os fenómenos do seu domínio por meio de hipóteses, teorias, princípios ou leis. O primeiro passo, neste trabalho de interpretação, é a formulação de uma hipótese, que não passa de uma interpretação provisória, isto é, uma conjectura ou suposição feita no sentido de explicar os dados obtidos. Um exemplo: supormos por hipótese, a existência de uma relação constante entre dois ou mais factos observados. Quando uma hipótese se apoia em observações ou em considerações racionais, converte-se numa teoria. E, finalmente, se foi verificada, isto é, satisfatoriamente comprovada, a hipótese eleva-se à categoria de lei, se é de carácter experimental, ou de princípio ou doutrina, se está baseada em argumentos racionais. As ciências particulares têm um lugar, um objecto próprio e uma incumbência especial, que consiste em determinar as causas próximas e formular as leis particulares. Enfim, ao estudo filosófico das ciências é habitual dar-se o nome de epsitemologia. António Pinela, Epistemologia, Reflexões


1. Evidencie do texto as principais características do discurso científico.

2. Discuta o papel desempenhado pela hipótese no trajecto a percorrer pelo método científico.

3. Diz o que entende por epistemologia.

O senso comum


O senso comum é um saber que está presente em todas as sociedades e em todos os indivíduos (todos são dotados de senso comum). Mas o senso comum é plural, variando de sociedade para sociedade e modificando-se com o decorrer dos tempos. O senso comum, enquanto princípio de sociabilidade, constitui o acordo mínimo exigível para que qualquer sociedade funcione como tal; ele assegura a coesão indispensável para que se possa falar de comunidade e de vida colectiva. Ele é princípio de equilibração, essencial a toda a sociedade, entre a dimensão do indivíduo e a dimensão do colectivo ou dito de outra forma, da sujeição do indivíduo às normas da vida colectiva. O senso comum é também o senso tradicional. Costumamos dizer: "sempre foi assim" para justificar um procedimento que nos criticam. O senso comum transporta e naturaliza um conjunto de convenções implícitas ou intrínsecas ao agir humano colectivamente dimensionado. Neste sentido, ele é conducente ou solidário de uma aceitação que assinala uma passividade inerente e indispensável face às exigências práticas e pragmáticas da vida. Como se adquire o senso comum? Ele é fruto da aprendizagem e educação que espontânea e/ou institucionalmente recebemos enquanto membros de uma comunidade. José Manuel Girão e Rui Alexandre Grácio

1. Estabeleça o alcance da característica do senso comum que diz respeito ao princípio de sociabilidade.

2. Explicite o significado da seguinte afirmação: "Neste sentido, ele é conducente ou solidário de uma aceitação que assinala "uma passividade inerente e indispensável face às exigências práticas e pragmáticas da vida".

A ruptura entre senso comum e ciência

«A elaboração de “ construções cientificas” implica ruptura com as construções do conhecimento vulgar” ’ (do senso comum, da ideologia).Na verdade, se a ruptura comas “ categorias “ , “ evidências” “ explicações “ vulgares não ocorre, não é de todo possível “ abrir espaço” para novas “construções”. Todo o conhecimento, mesmo o vulgar, é construído para responder a determinadas interrogações, a determinados problemas - e transporta, por isso, em si mesmo, implicitamente, as interrogações, os problemas para responder aos quais foi construído. Assim “ o conhecimento vulgar “ enquanto não é recusado como traduzindo directa e fielmente a realidade, continua impor ao pensamento não só as suas categorias explícitas, como também as interrogações escondidas, os problemas implícitos que estão na sua origem. Ora, os problemas, as interrogações, as necessidades de resposta a que o “conhecimento vulgar” ( de senso comum ou ideológico) responde e corresponde não são como vimos, as do conhecimento propriamente dito, mas os do “ reconhecimento “ e da “ prática social”. Não se trata, por conseguinte, de simplesmente pôr em dúvida, para construir a ciência, o que o senso comum ou a ideologia explicitamente afirmam como “evidente”; não se trata de ir verificar por métodos científicos, se as descrições / interpretações que o “conhecimento vulgar” nos oferece do social são correctas ou incorrectas, cientificamente ou não. A ruptura opera-se, fundamentalmente a outro nível – e sem de resto forçosamente se propor substituir as “ construções “ do “ conhecimento vulgar” por outras “ construções” no plano das práticas quotidianas, onde aquelas possam continuar a ser “ úteis” . Quando efectivamente se opera, é ao nível das perguntas – não ao das respostas, das descrições / interpretações – que centralmente se situa. Opera-se, portanto, enunciando novas interrogações, instaurando novas problemáticas, através das quais o que precisamente fica posto e causa é a forma como, nas operações produtoras do “ conhecimento vulgar” o real é interrogado. (…) O que de facto de começa por subverter, para a ciência de construir são as perguntas e não as respostas do senso comum ou da ideologia.» A. Sedas Nunes, Sobre o problema do conhecimento nas ciências sociais; Cadernos GIS; Lisboa.

1. Tendo em conta a expressão “ Na verdade, se a ruptura com as “ categorias “, “ evidências ” e explicações vulgares, não é de todo possível abrir espaço para novas “ explicações”, explique o motivo pelo qual o conhecimento vulgar constitui um obstáculo à evolução da ciência.
2. Partindo do texto, explicite a importância de uma ruptura epistemológica na construção do conhecimento científico.

o que difere o senso comum do conhecimento científico


«O senso comum, diferentemente das ciências, é uma especialização da inteligência no particular e no concreto. É comum, sem ser geral, porque consiste num conjunto de conhecimentos que permanece incompleto, até que se acrescente pelo menos outro conhecimento sobre a situação em causa; e, uma vez passada a situação, o conhecimento adicional deixa de ser relevante, de modo que o senso comum volta imediatamente ao seu estado normal de imperfeição. Assim, o senso comum parece argumentar a partir da analogia, mas as suas analogias desafiam a formulação lógica. (...) Depois, o senso comum talvez pareça generalizar, mas uma generalização proposta pelo senso comum não tem o significado de uma generalização proposta pela ciência. A generalização científica visa oferecer uma premissa a partir da qual se podem tirar deduções correctas. (…) Não é apenas no significado que atribui às analogias e às generalizações que o senso comum difere da Lógica e da Ciência. Em todas as suas expressões, opera a partir de um ponto de vista distinto e persegue um ideal próprio. As assunções heurísticas da ciência antecipam a determinação de naturezas que sempre actuam da mesma maneira, em circunstâncias similares, e, ainda, a determinação das normas ideais de probabilidade, a partir das quais os acontecimentos divergem, só de um modo não sistemático. Embora o cientista esteja consciente de que só obtém tais determinações através de uma série de aproximações, sabe também que mesmo as determinações aproximadas devem ter as propriedades lógicas da verdade abstracta. Por conseguinte, os termos têm de ser definidos sem ambiguidade e devem sempre empregar-se exactamente neste significado desprovido de ambiguidade. Os postulados devem ser estabelecidos; os seus pressupostos devem ser examinados; as suas implicações devem ser exploradas. Resulta daí, automaticamente, uma linguagem técnica e um modo formal de discurso. Não só nos vemos compelidos a dizer o que significamos e a significar o que dizemos, mas a correspondência que obtemos entre o dizer e o significar tem a simplicidade exacta de expressões primitivas como ‘ isto é um gato.” Por outro lado, o senso comum nunca aspira ao conhecimento universalmente válido e nunca visa uma comunicação exaustiva. As suas preocupações são concreta e particular. A sua função é dominar cada situação à medida que surge. O seu procedimento é conseguir um conjunto incompleto de conhecimentos que só será completo pela adição em cada ocasião de novos conhecimentos que o escrutínio da ocasião revela. Seria um erro para o senso comum tentar formular o seu conjunto incompleto de conhecimentos em definições e postulados e elaborar os seus pres supostos e implicações.» Bernard Lonergan, Insigth . A Stucly af Hurnan Understandinp, N. Y., PhiIosophica Livrary

1. Tendo presente a diferenciação, entre senso comum e conhecimento científico, elabore um texto onde estabeleça uma demarcação clara entre os dois modos de conhecimento referidos

Senso comum e ciência


"Ao passarmos de ideias elementares para as ideias abstractas, de juízos superficiais a outros mais profundos, fazemos a passagem da aparência das coisas para a sua realidade. Ao considerar o conhecimento, devemos fazer sempre uma distinção entre aparência e realidade – entre os fenómenos particulares que são imediatamente evidentes à observação e os processos ocultos, interconexões e leis que se manifestam nas aparências e estão na base dos factos observados. A tarefa de conhecer as coisas é sempre avançar das aparências para a realidade, assim como conseguir saber mais acerca do movimento real e interconexões das coisas, manifestas na sua existência particular e modo aparência. "Cornford, Materialismo Dialéctico.


1. Tendo presente o conteúdo do texto, elabore uma reflexão onde torne evidentes as diferenças entre o conhecimento vulgar e conhecimento científico.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Conhecimento Científico/ Vulgar

Trabalho de Casa
"Ao passarmos de ideias elementares para ideias abstractas, de juízos superficiais a outros mais profundos, fazemos a passagem da aparência das coisas para a sua realidade. Ao considerar o conhecimento, devemos fazer sempre uma distinção entre aparência e realidade - entre os fenómenos particulares que são imediatamente evidentes à observação e os processos ocultos, interconexões e leis que se manifestam nas aparências e estão na base dos factos observados. A tarefa de conhecer as coisas é sempre avançar das aparências para a realidade, assim como conseguir saber mais acerca do movimento real e interconexões das coisas, manifestas na sua existência particular e modo aparência." Cornford, Materialismo Didáctico
Tendo presente o conteúdo do texto, elabora uma reflexão onde se torne evidentes as diferenças entre o conhecimento vulgar e conhecimento científico.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Ficha de Trabalho sobre Kant

"O nosso conhecimento provém de duas fontes fundamentais do espírito, das quais a primeira consiste em receber as representações (a receptividade da impressões) e a segunda é a capacidade de conhecer um objecto mediante estas representações (espontaneidade dos conceitos); pela primeira é-nos dado um objecto; pela segunda é pensado em relação com aquela representação (como simples determinação do espírito).

Intuição e conceitos constituem, pois os elementos de todo o nosso conhecimento, de tal modo que nem conceitos sem intuição que de qualquer modo lhe corresponda, nem uma intuição sem conceitos podem dar um conhecimento.

Se chamarmos sensibilidade à receptividade do nosso espírito em receber representações na medida em que de algum modo é afectado, o entendimento é, em contrapartida, a capacidade de produzir representações ou a espontaneidade do conhecimento. (...) Sem a sensibilidade, nenhum objecto nos seria dado; sem o entendimento, nenhum seria pensado. Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas. Pelo que é necessário tornar sensíveis os conceitos (isto é, acrescentar-lhes o objecto na intuição) como tornar compreensíveis as intuições (isto é, submetê-las aos conceitos.)"

Kant, Critica da Razão Pura.

1. Quais são, na perspectiva de Kant, as fontes do nosso conhecimento?

2. Qual o papel desempenha cada dessas fontes no conhecimento?

3. Explique a seguinte afirmação de Kant: "Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas."

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

"O Estranho caso de Benjamim Button"


Terça-feira à tardinha ... resolvi ir ao cinema ... levei comigo uma companhia especial para ver um filme especial ...."O Estranho Caso de Benjamin Button" Este filme obteve mais nomeações para os Óscares, segundo a lista divulgada pela Academia norte-americana de Artes e Ciências Cinematográficas. É uma adaptação do livro de F. Scott Fitzgerald . Neste filme de David Frincher, em que Brad Pitt surge como um homem que vai rejuvenescendo ao longo da sua vida, recebeu 13 nomeações, entre as quais as de melhor realizador, melhor actor e melhor filme. Brad Pitt faz aqui um papel fantástico contracenando com Cate Blanchett.
Apesar de algumas críticas, posso dizer-vos que adorei o filme, não só por retratar uma época que apesar da guerra, adoro, mas porque é uma história no mínimo bizarra que retrata acima de tudo o sentido da existência humana, a condição do homem, o destino, a liberdade, o que faz de nós humanos, afinal!
Fá-lo de uma forma estranha, sem dúvida, um homem que nasce "velho" e morre "bebé". Perdemos a noção dos 160 minutos que ali estamos, somos transportados para o filme, para as emoções, vão fluindo as cenas perante nós com naturalidade ... não há monotonia, tudo vai passando ao longo das horas do relógio suiço, com uma beleza atroz ... por vezes, até arrepiante ... cada palavra, cada pensamento, cada frase é para ser digerida ao minuto ... ao segundo ... mexe e remexe connosco ... faz-nos pensar na vida, na nossa vida ... nos momentos que perdemos, nos que ganhámos, naqueles em que soubemos esperar , na morte , no que está para além de tudo ... o amor ...
O filme simplesmente começa: “Eu nasci sob circunstâncias pouco usuais".e a partir daí é uma série de surpresas!
Adorei, chorei, ri, quem estava ao meu lado sentia-me a tremer ... o filme mexeu comigo, "falou" comigo ... sai de lá com os olhos vermelhos, cheia de lenços de papel e ainda a fungar ... a caminho de casa voltei a chorar, a fungar ... recomendo, sem dúvida ...
E as minhas companhias ... para além de se terem munido previamente de pipocas,mais sumos, coca-colas, gomas, gelados, chocolates ... adoraram o filme ... fartaram-se de chorar como eu ... a minha companhia foram vinte e um meninos e meninas do 11º ano ... resolvemos fazer uma aula de Filosofia no exterior e que sítio melhor ... senão no Cinema ... e que filme melhor ... este bastante pertinente e rico filosoficamente!

(Desculpem ... mas este post é dedicado a vocês ... meus alunos! A nossa aula durou até às 20.10h !!!)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

As substâncias cartesianas e as suas relações



Descartes admite existirem três substâncias , a que atribui as designações de "res cogitans", "res divina" e "res extensa".

"Res cogitans" - Descartes apreende por intuição a certeza do "cogito, ergo sum", isto é, do "penso, logo existo". Descartes sabe que existe, mas interroga-se no sentido se saber que coisa é. Dado que a evidência de que existe lhe é garantida pelo acto de duvidar e de pensar, ele considera ser apenas uma substância que pensa, um pensamento. O filósofo num dado momento afirma que "eu sou uma substância cuja essência ou natureza é o pensamento!"Ao retirar a verdade da sua existência do acto de pensar, tal não significa que se considere existir como homem formado de corpo e de alma. Não tendo ainda nada que lhe garanta a existência do corpo, Descartes define-se essencialmente como uma substância pensante, um pensamento, uma razão, uma alma, ou um espírito. É isto apenas que ele intui, não sabendo ainda se possui um corpo, se há um mundo ou qualquer lugar onde eventualmente possa existir. Existe apenas como "res cogitans", independentemente do corpo, não necessitando de algo material para se afirmar, mas impondo-se evidentemente pelo puro acto de pelo puro acto de pensar. O "res cogitans" é pensar. É no acto de pensar que a alma se funda, é no acto de pensar que o existir se ancora, e ele durará todo o tempo em que Descartes puder dizer: "eu penso".

"Res divina" - A segunda substância que Descartes fundamenta metafisicamente é Deus; temos, no entanto, uma intuição clara das suas perfeições pelo que convém que nos detenhamos nalguns dos atributos que caracterizam esta substância. Descartes afirma que entende "(...) nome de Deus uma substância infinita, eterna , imutável, independente, omnisciente, omnipotente( ...)." Descartes tem ,assim, um conceito de Deus muito semelhante ao da teodiceia clássica. Deus é visto como uma substância, a única no sentido propriamente dito, porque é a única que subsiste por si mesma. Todas as outras dependem de Deus que as criou e as mantém. Deus é independente, no sentido de ser a causa de si mesmo. Em Deus há como que uma identificação de causa e efeito em todo o sempre, pelo que se concebe como um ser em autogeneração. Deus é veraz, é com base na veracidade divina que há a garantia do conhecimento humano. Se Deus é o autor da nossa faculdade de distinguir o verdadeiro do falso e se nós a usarmos bem, não podemos de modo algum, cair no erro, pois isso seria atribuir o erro à própria identidade divina. Ora, como Deus é perfeito, tem de ser simultaneamente bom e verdadeiro e constitui-se como princípio e garante das nossas evidências. O homem não poderá ter ciência certa se não conhecer aquele que o criou, isto é, Deus. Deus é a entidade criadora. Descartes vê na substância divina um ser omnipotente, criador não só do homem, mas de tudo aquilo que existe. Ressalta, assim, a ideia de Deus como autor não só das coisas existentes no mundo como até das verdades metafísicas, matemáticas e morais.

"Res extensa"- No entanto, ele continua a interrogar-se no sentido de averiguar se não poderão existir outras coisas para além de si e de Deus. Descartes averiguando as ideias descobre uma outra ideia, e só uma que se lhe impõe com igual evidência. Trata-se da ideia de extensão. Que esta ideia existe é um facto, mas existirá algo que lhe corresponda fora do pensamento? Mais uma vez, Deus é invocado como garantia da evidência, pois se possuímos a ideia clara e distinta de extensão, ela terá de corresponder a uma extensão real na natureza com a qual se parece. Desta forma, a extensão é a propriedade fundamental da matéria. Todos os corpos materiais e o próprio espaço se reduzem à extensão. Por isso, a extensão é a característica essencial dos corpos. Qualquer corpo consiste unicamente numa substância extensa em comprimento, largura e profundidade.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

As características da dúvida cartesiana


O conhecimento seguro que Descartes quer adquirir mediante a aplicação das regras do método leva-o à necessidade de, voluntariamente, pôr em causa todas as opiniões que até ai acolhera sem qualquer preocupação metódica. Descartes serve-se metodicamente da tarefa de duvidar de tudo para que que a primeira certeza seja indubitável. É nesta medida que se diz que a dúvida é metódica.
A dúvida é provisória pois a permanência nela só se verifica enquanto não encontra verdades consistentes. A primeira certeza encontrada foi, a da sua existência como substância pensante.
Considera-se, ainda, uma dúvida universal, por não se limitar à suspensão de conhecimentos particulares sobre este ou aquele aspecto do real. Ela ataca os fundamentos ou raízes de todos os conhecimentos quer sejam provenientes dos sentidos, quer da razão.
É absoluta, na medida em que o carácter hiperbólico que lhe é conferido pela hipótese do génio maligno, a torna uma dúvida radical e profunda.

O filme "O Nome da Rosa"

O Porquê do filme "O Nome da Rosa", baseado no livro de Umberto Eco com mesmo título ?

SINOPSE
Estranhas mortes começam a ocorrer num mosteiro beneditino localizado na Itália durante a baixa idade média, onde as vítimas aparecem sempre com os dedos e a língua roxos. O mosteiro guarda uma imensa biblioteca, onde poucos monges tem acesso às publicações sacras e profanas. A chegada de um monge franciscano (Sean Conery), incumbido de investigar os casos, irá mostrar o verdadeiro motivo dos crimes, resultando na instalação do tribunal da santa inquisição.

INTRODUÇÃO
A Baixa Idade Média (século XI ao XV) é marcada pela desintegração do feudalismo e formação do capitalismo na Europa Ocidental. Ocorrem assim, nesse período, transformações na esfera económica (crescimento do comércio monetário), social (projecção da burguesia e sua aliança com o rei), política (formação das monarquias nacionais representadas pelos Reis absolutistas) e até religiosas, que culminarão com o cisma do ocidente, através do protestantismo iniciado por Martinho Lutero na Alemanha em 1517.
Culturalmente, destaca-se o movimento renascentista que surgiu em Florença no século XIV e se propagou pela Itália e Europa, entre os séculos XV e XVI. O renascimento, enquanto movimento cultural, resgatou da antiguidade greco-romana os valores antropocêntrico e racionais, que adaptados ao período, entraram em choque com o teocentrismo e dogmatismo medievais sustentados pela Igreja.
No filme, o monge franciscano representa o intelectual renascentista, que com uma postura humanista e racional, consegue desvendar a verdade por trás dos crimes cometidos no mosteiro.

1. Contextualização
Discussão dos elementos formadores da cultura moderna, o surgimento do pensamento moderno, no período da transição da Idade Média para a Modernidade.

O Filme
O Nome da Rosa pode ser interpretado como tendo um carácter filosófico, quase metafísico, já que nele também se busca a verdade, a explicação, a solução do mistério, a partir de um novo método de investigação. E Guilherme de Bascerville, o frade franciscano detective, é também o filósofo, que investiga, examina, interroga, duvida, questiona e, por fim, com seu método empírico e analítico, desvenda o mistério, ainda que para isso seja pago um alto preço.

O Tempo
Trata-se do ano 1327, ou seja, a Alta Idade Média. Lá se retoma o pensamento de Santo Agostinho (354-430), um dos últimos filósofos antigos e o primeiro dos medievais, que fará a mediação da filosofia grega e do pensamento do início do cristianismo com a cultura ocidental que dará origem à filosofia medieval, a partir da interpretação de Platão e o neoplatonismo do cristianismo. As teses de Agostinho nos ajudarão a entender o que se passa na biblioteca secreta do mosteiro em que se situa o filme.

Doutrina Cristã
Neste tratado, Santo Agostinho estabelece precisamente que os cristãos podem e devem tomar da filosofia grega pagã tudo aquilo que for importante e útil para o desenvolvimento da doutrina cristã, desde que seja compatível com a fé (Livro II, B, Cap. 41). Isto vai constituir o critério para a relação entre o cristianismo (teologia e doutrina cristã) e a filosofia e a ciência dos antigos. Por isso é que a biblioteca tem que ser secreta, porque ela inclui obras que não estão devidamente interpretadas no contexto do cristianismo medieval. O acesso à biblioteca é restrito, porque há ali um saber que é ainda estritamente pagão (especialmente os textos de Aristóteles), e que pode ameaçar a doutrina cristã. Como diz ao final Jorge de Burgos, o velho bibliotecário, acerca do texto de Aristóteles – a comédia pode fazer com que as pessoas percam o temor a Deus e, portanto, faz desmoronar todo esse mundo.

2. Disputa de Filosofia
Entre os séculos XII e XIII temos o surgimento da escolástica, que constitui o contexto filosófico-teológico das disputas que se dão na abadia em que se situa O Nome da Rosa. A escolástica significa literalmente "o saber da escola", ou seja, um saber que se estrutura em torno de teses básicas e de um método básico que é compartilhado pelos principais pensadores da época.

2.1 Influência aos Pensamentos
A influência desse saber corresponde ao pensamento de Aristóteles, trazido pelos árabes (muçulmanos), que traduziram muitas de suas obras para o latim. Essas obras continham saberes filosóficos e científicos da Antiguidade que despertariam imediatamente interesses pelas inovações científicas decorrentes.

2.2 Consolidação Política
A consolidação política e económica do mundo europeu fazia com que houvesse uma maior necessidade de desenvolvimento científico e tecnológico: na arquitectura e construção civil, com o crescimento das cidades e fortificações; nas técnicas empregadas nas manufacturas e actividades artesanais, que começam a se desenvolver; e na medicina e ciências correlatas.

2.3 Pensamento Aristotélico
O saber técnico-científico do mundo europeu era nesta época extremamente restrito e a contribuição dos árabes será fundamental para este desenvolvimento pelos conhecimentos de que dispunham de matemática, de ciências (física, química, astronomia, medicina) e de filosofia. O pensamento agora (Aristotélico) será marcado pelo empirismo e materialismo.

3. A Época
O enredo desenvolve-se na ultima semana de 1327, num mosteiro da Itália medieval. A morte de sete monges em sete dias e noites, cada um de maneira mais insólita - um deles, num barril de sangue de porco, é o motor responsável pelo desenvolvimento da acção. A obra é atribuída a um suposto monge, que na juventude teria presenciado os acontecimentos.
Este filme é uma crónica da vida religiosa no século XIV, e relato surpreendente de movimentos heréticos. Para muitos críticos, o nome da rosa é uma parábola sobre a Itália contemporânea. Para outros, é um exercício monumental sobre a mistificação.

4. O Título
A expressão "O nome da Rosa" foi usada na Idade Média significando o infinito poder das palavras. A rosa subsiste seu nome, apenas; mesmo que não esteja presente e nem sequer exista. A " rosa de então" , centro real desse romance, é a antiga biblioteca de um convento beneditino, na qual estavam guardados, em grande número, códigos preciosos: parte importante da sabedoria grega e latina que os monges conservaram através dos séculos.

5. Biblioteca do Mosteiro
Durante a Idade Média umas das práticas mais comuns nas bibliotecas dos mosteiros eram apagar obras antigas escritas em pergaminhos e sobre elas escreve ou copiar novos textos. Eram os chamados palimpsestos, livrete em que textos científicos e filosóficos ma Antiguidade clássica eram raspados das páginas e substituídos por orações rituais litúrgicos.
O nome da rosa é um livro escrito numa linguagem da época, cheio de citações teológicas, muitas delas referidas em latim. É também uma crítica do poder e do esvaziamento dos valores pela demagogia, violências sexuais, os conflitos no seio dos movimentos heréticos, a luta contra a mistificação e o poder. Uma parábola sangrenta patética da história da humanidade
Baseado: No romance de mesmo nome de Umberto Eco.

5.1 - Pensamento
O pensamento dominante, que queria continuar dominante, impedia que o conhecimento fosse acessível a quem quer que seja, salvo os escolhidos. No O nome da Rosa, a biblioteca era um labirinto e quem conseguia chegar no final era morto. Só alguns tinham acesso. É uma alegoria do Umberto Eco, que tem a ver com o pensamento dominante da Idade Média, dominado pela igreja. A informação restrita a alguns poucos representava dominação e poder. Era a idade das trevas, em que se deixava na ignorância todos os outros.

6. História
Em 1327 William de Baskerville (Sean Connery), um monge franciscano, e Adso von Melk (Christian Slater), um noviço que o acompanha, chegam a um remoto mosteiro no norte da Itália. William de Baskerville pretende participar de um conclave para decidir se a Igreja deve doar parte de suas riquezas, mas a atenção é desviada por vários assassinatos que acontecem no mosteiro. William de Baskerville começa a investigar o caso, que se mostra bastante intrincando, além dos mais religiosos acreditarem que é obra do Demônio. William de Baskerville não partilha desta opinião, mas antes que ele conclua as investigações Bernardo Gui (F. Murray Abraham), o Grão-Inquisidor, chega no local e está pronto para torturar qualquer suspeito de heresia que tenha cometido assassinatos em nome do Diabo. Considerando que ele não gosta de Baskerville, ele é inclinado a colocá-lo no topo da lista dos que são diabolicamente influenciados. Esta batalha, junto com uma guerra ideológica entre franciscanos e dominicanos, é travada enquanto o motivo dos assassinatos é lentamente solucionado.
O ano é 1327. Representantes da Ordem Franciscana e a Delegação Papal se reúnem num mosteiro Beneditino para uma conferência. Mas a missão deles é subitamente ofuscada por uma série de assassinatos. Utilizando sua brilhante capacidade de dedução, o monge franciscano William de Baskerville (Sean Connery), auxiliado pelo seu noviço Adso de Melk (Christian Slater), empenha-se para desvendar o mistério. Mas antes que William possa completar sua investigação, o mosteiro é visitado pelo seu antigo desafecto, o Inquisidor Bernardo Gui (F. Murray Abraham). O poderoso Inquisidor está determinado a erradicar a heresia através da tortura e se William, o caçador, persistir na sua busca, também se tornará caça. Mas à medida que Bernardo Gui se prepara para acender a fogueira da Inquisição, William e Adso voltam à biblioteca labirinticae descobrem uma verdade extraordinária ...

Resumo
Do ponto de vista do filme que hoje está sendo abordado, notamos que a história passa em um mosteiro na Itália Medieval. A idade média assistiu, em sua agonia um grande debate Filosófico Religioso. Perdido o equilíbrio do atomismo, o homem medieval caiu em dois extremos opostos.
De um lado os humanistas racionalistas Frei Guilherme de Ockham, um édito moderno. Tais humanistas cultivaram o antropocentrismo julgaram que graças às ciências e à técnica, o homem seria capaz de vencer todas as misérias do mundo, até criar uma era de grande prosperidade material e de completa felicidade natural.
De outro lado místicos com visão extremamente pessimista da realidade. Para eles o mundo era intrinsecamente mau e irredimível por ser obra de um DEUS perverso, distinto da divindade. Acreditavam que a razão humana era má e só seria desejável perder-se no nada divino.
No mosteiro, sete monges morrem estranhamente, isto aborda muito a violência.
Há também uma violência sexual, no qual mulheres se vendem aos monges em troca de comida e muitas vezes depois são mortas.
Movimentos eclécticos do século XIV, a luta contra a mistificação, o poder, o esvaziamento de valores pela demagogia, são mostrados em um cenário sangrento sobre a política da historia da humanidade.

Regras do método cartesiano


Para Descartes existem quatro regras para chegar a razão chegar a bom termo:
Regra da evidência: Descartes considera que nada deve ser admitido pelo espírito como certo se não for absolutamente evidente. As ideias são evidentes quando se apresentam ao espírito , com clareza e distinção , ou seja, com uma definição e nitidez tais, que não podem , de modo algum, confundidas com nenhuma outra.

Regra da análise: Descartes preconiza a análise como processo de decompor o complexo em pequenas parcelas simples, em ordem a uma captação mais fácil e certa.Deste modo, qualquer problema complicado é susceptível de redução a problemas simples.

Regra da síntese: O espírito, uma vez na posse dos elementos simples, deve fazer a reconstituição do complexo, conduzindo os pensamentos por ordem.

Regra da enumeração: Esta regra refere-se à necessidade de entrar em linha de conta com todos os dados do problema e de rever cuidadosamente e minunciosamente todos os elementos implicados na sua solução, a fim de se ter a certeza de nada ter esquecido, sem o que a sua resolução não poderia ser totalmente correcto.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Indução

"O critério de demarcação inerente à lógica indutiva - isto é, o dogma positivista do significado do sentido - equivale a exigir que todos os enunciados da ciência empírica (ou todos os enunciados com sentido) sejam susceptíveis de uma decisão definitiva com respeito à sua verdade e à sua falsidade, podemos dizer que têm de ser " decidíveis" de modo concludente. Isto quer dizer que têm de ter uma forma tal que seja logicamente possível tanto verificá-los como falsificá-los. Assim disse Schlick: (...) Um autêntico enunciado tem que ser susceptível de verificação concludente; e Waismann escreve ainda com maior claridade: Se não é possível determinar se um enunciado é verdadeiro, então carece inteiramente de sentido: pois o sentido possível de um enunciado é o método da sua verificação.
Ora bem, na minha opinião, não existe nada que possa chamar-se indução. Portanto, será logicamente inadmissível a inferência de teorias a partir de enunciados singulares que estão verificados pela experiência (o que quer que seja que isto queira dizer). Assim, pois as teorias não são verificáveis empiricamente.
Se queremos evitar o erro positivista que o nosso critério de demarcação elimina dos sistemas teóricos da ciência, devemos eleger um critério que nos permita admitir no domínio da ciência empírica inclusive enunciados que não podem verificar-se.
Mas, certamente só admitirei um sistema entre os científicos ou empíricos se é susceptível de ser contrastado pela experiência. Estas considerações sugerem- nos que o critério de demarcação que temos de adoptar não é o da verificabilidade, mas o da falsicabilidade dos sistemas. Dito de outro modo: não exigirei que um sistema científico possa ser seleccionado, de uma vez para sempre, num sentido positivo; mas sim que seja susceptível de selecção num sentido negativo por meio de contrastes ou provas empíricas: há- de ser possível refutar pela experiência um sistema científico empírico."
Karl Popper, A Responsabilidade do Cientista e outros Escritos, Publicações D. Quixote.

1. Como podemos segundo o texto "evitar o erro positivista"?
2. Quais é segundo o texto a eficácia do critério da verificabilidade?

Exercício II

"Hume, para falar uma linguagem que não era a sua, demonstrou que contrariamente às inferências demonstrativas (que se baseiam nas regras da lógica dedutiva) as inferências não demonstrativas (ou indutivas), nomeadamente aquelas cujas premissas descrevem estados de coisas observadas e a conclusão um estado de coisas inobservado, não preservam a verdade das suas premissas: se as premissas de uma inferência indutiva são verdadeiras, a conclusão não é automaticamente verdadeira.
Do facto de todos os corvos observados serem negros, não se segue que todos os corvos observados e inobservados sejam negros. Por outras palavras, a indução não tem justificação lógica. Esta conclusão é o ponto de partida da moderna filosofia das ciências. Desta primeira conclusão, Hume tirou uma segunda: a saber, que as nossas crenças baseadas sobre inferências não demonstrativas são irracionais ou insensatas. Esta segunda tese não pode ser deduzida da primeira a não ser que se adopte uma premissa suplementar que podemos qualificar de «dedutivista», segundo a qual qualquer inferência não demonstrativa e irracional ou insensata.
Karl Popper é, entre os filósofos contemporâneos, o principal partidário da segunda conclusão de Hume e portanto da premissa dedutivista. Segundo ele, nós raciocinamos sempre de maneira dedutiva, nunca de maneira indutiva. A partir de uma hipótese tendo a forma de enunciado tendo a forma de um enunciado universalmente quantificado (por exemplo, «Todos os corvos são negros».), pode – se predizer – se que o próximo corvo que observamos será negro. Se ele for amarelo – limão, então pode inferir – se (…), que a nossa hipótese foi refutada, na condição de não estipular que o volátil amarelo limão não poderia, em virtude da sua cor, ser um corvo. Daí conclui que, se temo razões para considerar uma teoria como falsa – basta para isso que ela tenha sido refutada - , em contrapartida, não temos nenhuma razão para considerar uma teoria como verdadeira, por muito abundantes que tenham sido as afirmações experimentais que ela recebeu. A metodologia negativa de Popper, pela sua insistência unilateral sobre a refutabilidade das teorias científicas, opõe – se ao positivismo lógico.
(...) A rejeição popperiana da indução tem, quanto a mim, os defeitos de premissa dedutivista. (…) Do facto de que as inferências indutivas são falíveis não concluirei nem que é preciso renunciar à indução, nem que nós não dispomos de nenhuma razão para afirmar a verdade de teorias claramente confirmadas."
P. Jacob, in A Filosofia das Ciências Hoje, Edições Fragmentos.

1. Explicite a tese fundamental defendida pelo autor.
2. Discuta, partindo do texto a importância da indução e da dedução para a formulação da verdade científica.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Locke


A contribuição de Locke para o desenvolvimento das ideais filosóficas foi ter empregado o seu talento como um "operário dos fundos, limpando o terreno e removendo parte do lixo que obstrui o caminho do conhecimento". Afirmando que tomou um lugar humilde ao lado "de mestres como o grande Huygenius e o incomparável Newton", Locke removeu o lixo que obstruía o caminho do conhecimento ao trazer para a cabeça da filosofia moderna o problema da epistemologia: como conhecemos. Deixamos a ele próprio a tarefa de investigar os limites do conhecimento para que os homens pudessem não perder a sua energia através de objectivos vãos:

"Se através desta investigação da natureza do entendimento, puder descobrir os poderes que aí residem, até onde podem alcançar, a que coisas são, em qualquer grau, adequados e onde são impotentes, penso que isso poderá ser útil para prevenir o espírito atarefado do homem a que seja mais cauteloso quando se ocupa de coisas que excedem a sua compreensão, a parar quando se encontra no extremo limite dos seus conhecimentos e a descansar numa ignorância tranquila daquelas coisas que, depois de examinadas, se descobre estarem para lá do alcance das nossas capacidades" (…)

O Ensaio inclui um ataque à perspectiva platónica das ideias inatas, segundo a qual vimos ao mundo providos de uma visão daquilo que simplesmente redescobrimos. Por exemplo, Locke fazia notar que são princípios "aos quais toda a humanidade dá? assentimento universal". O seu ponto principal de argumentação era, contudo, que não havia necessidade de afirmar impressões inatas; os homens "apenas com uso das suas faculdades naturais, podem alcançar todo o conhecimento que tem. Assim, Locke reclamava a via empírica ou natural para todo o conhecimento, contra a tentativa racionalista e sobrenatural. O saber não era impresso, de uma vez por todas, no cérebro do homem por acção de Deus, tinha que ser descoberto, pela experiência, no mundo. Este era o "caminho" da ciência do século XVII.

A teoria de Locke era, por isso, uma doutrina empirista. Defendia que a mente, na criança, está inteiramente em branco. Usou a frase "folha em branco, (tábua rasa). Locke formulou juntamente e a solução:

"Suponhamos que a mente é, por assim dizer, uma folha em branco desprovida de qualquer caracteres, sem nenhuma ideia; como vem ela a ser preenchida? Donde obtém esse vasto armazenamento que a imaginação activa e livre do homem aí gravou com uma variedade quase infinita? Donde tira ela todos os materiais da razão e do saber? A isto respondo eu, numa palavra - da EXPERIÊNCIA; é nela que todo o nosso conhecimento se funda e, em última instância, é dela própria que deriva".

O espírito, através da experiência, sofre do exterior impressões sensíveis. Estas impressões (que Locke chama, mais tarde, ideias) são depois organizadas pelo entendimento, de uma forma que Locke achou difícil de explicar, embora tenha feito uma tentativa audaciosa. Na realidade, acrescentou Locke, a experiência pode fornecer o entendimento com ideias derivadas quer da sensação quer da reflexão (isto é, "das operações internas dos nossos espíritos, percepcionadas e reflectidas por nós mesmos" (…) Com as próprias palavras de Locke: "Portanto, parece-me que o conhecimento não é senão a percepção da conexão e do acordo, ou do desacordo e mútua rejeição de qualquer das nossas ideias. Nisto somente consiste o conhecimento"
J. Bronowski, Bruce Mazlish, A Tradição Intelectual do Ocidente, Edições 70. (adaptado)

1. Explique motivo John Locke tem necessidade de "atacar" a teoria platónica das ideias.

2. Que concepção, acerca do conhecimento, está presente na convicção, de que a mente na criança está totalmente em branco.

3. Explicite os princípios filosóficos que subjazem a essa concepção.

Retirado do site Netprof.

Hume


Hume nasceu em Edimburgo e frequentou a universidade local. Inicialmente, pensou em seguir a carreira jurídica mas, em suas palavras, chegou a uma "aversão intransponível a tudo, excepto ao caminho da filosofia e a aprendizagem em geral". Sua mãe, que enviuvara quando David era criança, ficou assustada com a decisão, mas Lord Kames , um familiar e protector de Hume , tranquilizou-a.

Dedicou-se aos estudos, como auto-didacta , em França, onde completou a sua obra-prima, Tratado da Natureza Humana, com apenas 26 anos. Apesar de muitos académicos considerarem hoje o Tratado sua maior obra e um dos livros mais importantes da História da Filosofia, o público inglês não se entusiasmou imediatamente. Hume tinha esperado um ataque à publicação e preparava uma defesa apaixonada. Para sua surpresa, a publicação do livro passou despercebida, e sobre esta falta de reacção do público, em 1739-40, escreveu: "saiu da editora morto à nascença".

Após ter concluído que o problema do Tratado era o estilo e não o conteúdo, ele encurtou o texto e deu-lhe um estilo mais ligeiro, renovou algum do material para consumo mais popular: esforço que deu existência ao Investigação Sobre o Entendimento Humano. Também não foi muito bem sucedido com o público, embora melhor do que ocorrera com o Tratado. Foi a leitura desta Investigação que teria feito Kant- então um desconhecido , já de idade avançada e sem qualquer obra relevante - afirmar que o fez acordar do seu "sono dogmático".

No entanto, para além dos seus trabalhos no âmbito da filosofia, Hume ascendeu à fama literária como ensaísta e historiador, com seu célebre História da Inglaterra.

Hume viveu a última década da sua vida em Edimburgo, no novo aldeamento de New Town .
pensamento de Hume possui ainda relevância extraordinária na filosofia actual , com imensa influência. Eis algumas das suas principais contribuições para a filosofia:
O problema da causalidade
Quando um evento provoca um outro evento, a maioria das pessoas pensa que estamos conscientes de uma conexão entre os dois que faz com que o segundo siga o primeiro.

Hume questionou esta crença, notando que se é óbvio que nos apercebemos de dois eventos, não temos necessariamente de aperceber uma conexão entre os dois. E como havemos nós de nos aperceber desta misteriosa conexão senão através da nossa percepção ?

Hume negou que possamos fazer qualquer idéia de causalidade que não através do seguinte: Quando vemos que dois eventos sempre ocorrem conjuntamente, tendemos a criar uma expectativa de que quando o primeiro ocorre, o segundo seguirá.

Esta conjunção constante e a expectativa dela são tudo o que podemos saber da causalidade, e tudo o que a nossa ideia de causalidade pode inferir. Uma tal conceptualização rouba à causalidade a sua força e alguns Humeanos posteriores, como Russell , desmentiram a noção de causalidade no geral como algo de parecido com a superstição.

Mas isto é uma violação do senso-comum . O problema da causalidade: O que justifica a nossa crença numa conexão causal? Que tipo de conexão podemos perceber? É um problema que não tem solução unânime. A perspectiva de Hume parece ser que nós temos uma crença na causalidade semelhante a um instinto, que se baseia no desenvolvimento dos hábitos na nossa mente. Uma crença que não pode ser eliminada mas que também não pode ser provada verdadeira por nenhum argumento, dedutivo ou indutivo, tal como na questão da nossa crença na realidade do mundo exterior.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O empirismo



O empirismo (de empeiria = experiência) opõe à tese do racionalismo (segundo a qual o pensamento, a razão, é a verdadeira fonte de conhecimento), a antítese que diz: a única fonte do conhecimento humano é a experiência. Na opinião do empirismo, não há qualquer património a priori da razão. A consciência cognoscente não tira os seus conteúdos da razão; tira-os exclusivamente da experiência. O espírito humano está por natureza vazio; é uma tábua rasa, uma folha em branco onde a experiência escreve. Todos os nossos conceitos, incluindo os mais gerais e abstractos, procedem da experiência. Enquanto o racionalismo se deixa levar por uma ideia determinada, por uma ideia de conhecimento, o empirismo parte dos factos concretos. Para justificar a sua posição, recorre à evolução do pensamento e do conhecimento humanos. Esta evolução prova, na opinião do empirismo, a alta importância da experiência na produção do conhecimento. A criança começa por ter percepções concretas. Com base nessas percepções chega, paulatinamente, a formar representações gerais e conceitos. Estes nascem, por conseguinte, organicamente da experiência. Não se encontra nada semelhante a esses conceitos que existem completos no espírito ou se formam com total independência da experiência. A experiência apresenta-se, pois, como a única fonte do conhecimento.
Enquanto os racionalistas procedem da matemática a maior parte das vezes, a história do empirismo revela que os seus defensores procedem quase sempre das ciências naturais. Isto é compreensível. Nas ciências naturais a experiência representa o papel decisivo. Nelas trata-se sobretudo de comprovar exactamente os factos mediante uma cuidadosa observação. O investigador está completamente entregue à experiência. É muito natural que quem trabalha de preferência ou exclusivamente com este método das ciências naturais, tenha tendência para de antemão colocar o factor empírico sobre o racional. Enquanto que o filósofo de orientação matemática chega facilmente a considerar o pensamento como a fonte única do conhecimento, o filósofo que vem das ciências naturais tenderá para considerar a experiência como fonte e base de todo o conhecimento humano.
J. Hessen, Teoria do Conhecimento, Almedina



1. Explique o alcance da seguinte afirmação: "Na opinião do empirismo, não há qualquer património a priori da razão. A consciência cognoscente não tira os seus conteúdos da razão; tira-os exclusivamente da experiência".
2. Discuta a cumplicidade existente entre o empirismo e as ciências naturais.
3. Produza um texto onde torne evidentes as principais diferenças existentes entre a concepção empirista e o racionalismo filosófico.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Textos de Descartes

1. Dúvida
"[...] admiti anteriormente como absolutamente certas e manifestas muitas coisas que, entretanto, depreendi depois serem duvidosas. Que coisas foram estas? A Terra, o Céu, os Astros, e todas as coisas que recebi pelos sentidos. Mas o que compreendia eu delas, com clareza? As próprias ideias ou pensamentos de tais coisas, que se apresentavam ao meu espírito. E ainda agora não contesto que estas ideias estão de facto em mim. [...] Mas que mais? Quando considerava nos temas da Aritmética e da Geometria coisas absolutamente simples e fáceis, como dois mais três são cinco, e equivalentes, não as intuí pelo menos bastante claramente para afirmar que são verdadeiras? Posteriormente, só fiz o juízo de que se devia duvidar delas porque me vinha ao espírito que possivelmente um certo Deus podia ter-me dado uma tal natureza que eu também me enganasse sobre aquelas coisas que parecem mais manifestas. Mas sempre que esta opinião sobre o poder supremo de Deus, concebida anteriormente, me ocorre, não posso deixar de confessar que a ele lhe é fácil, se o quiser, conseguir que eu erre também naquilo que intuo do modo mais evidente pelos olhos do espírito."

2. Cogito
"[...] persuadi-me que não havia absolutamente nada no mundo, nenhum céu, nenhuma terra, nenhuns espíritos, nenhuns corpos. Não me persuadi também de que eu próprio não existia? Pelo contrário, eu existia com certeza se me persuadi de alguma coisa. Mas há um enganador, não sei qual, sumamente poderoso, sumamente astuto, que me engana sempre com a sua indústria. No entanto, não há dúvida de que também existo, se me engana; que me engane quanto possa, não conseguirá nunca que eu seja nada enquanto eu pensar que sou alguma coisa. De maneira que, depois de ter pesado e repesado muito bem tudo isto, deve por último concluir-se que esta proposição Eu sou, eu existo, sempre que proferida por mim ou concebida pelo meu espírito, é necessariamente verdadeira."

3. Deus
a) " ... é manifesto, pela luz natural, que deve haver pelo menos tanta realidade objectiva na causa ... como no efeito da mesma causa. Porque, pergunto, de onde pode o efeito tirar a sua realidade, a não ser da causa? E de que modo poderia ela conferir-lha se não a possuísse também? Daqui se segue que nem algo pode provir do nada, nem também aquilo que é mais perfeito, isto é, que contém em si mais realidade, daquilo que contém menos perfeição."

b) "Quanto ao que é claro e distinto nas ideias das coisas corpóreas, parece-me que alguma coisa poderia ser tirada da ideia de mim mesmo ... De maneira que só resta a ideia de Deus, na qual se deve considerar se há alguma coisa que não pudesse provir de mim próprio. Pelo nome de Deus compreendo uma certa substância infinita, independente, sumamente inteligente, omnipotente, e pela qual foram criados quer eu mesmo, quer tudo o resto que existe, se é que alguma coisa existe. O que, sem dúvida, é tão notável que quanto mais cuidadosamente atento nessa ideia tanto menos parece que eu possa tirar só de mim a sua origem. E, por conseguinte, do atrás dito deve concluir-se que Deus existe necessariamente. Porque, embora pela razão de eu ser uma substância esteja em mim uma certa ideia de substância, no entanto, como sou finito, não seria a ideia de uma substância infinita, a não ser que procedesse de outra substância que fosse realmente infinita."

c) "Agora parece que enxergo um certo caminho pelo qual se é conduzido desta contemplação do Deus verdadeiro ... ao conhecimento de todas as outras coisas. Em primeiro lugar, reconheço que é impossível que ele me engane alguma vez, porque em toda a falácia ou logro se descobre alguma imperfeição. E embora poder enganar pareça ser uma certa prova de subtileza de espírito ou de poder; querer enganar atesta, sem dúvida nenhuma, malícia ou fraqueza de espírito: o que, por isso, não pertence a Deus. A seguir, verifico que há em mim uma certa faculdade de julgar que, certamente, recebi de Deus, como todas as restantes coisas que há em mim; e, porque ele não me quer enganar, com certeza não ma deu tal que, quando rectamente a uso, possa errar alguma vez."

4. Ideias inatas
"E agora, depois de ter notado o que se deve evitar e o que se deve fazer para atingir a verdade, parece-me que nada é mais urgente do que emergir das dúvidas em que caí nos dias precedentes e ver se posso conhecer algo de certo sobre as coisas materiais. E, na verdade, antes de inquirir se tais coisas existem for a de mim, devo considerar as ideias delas, na medida em que estão no meu pensamento, e ver quais são as distintas e quais são as confusas. Assim, imagino distintamente a quantidade, que os filósofos chamam vulgarmente quantidade contínua, ou seja, a extensão desta quantidade ou, melhor, de uma coisa maior ou menor, segundo o comprimento e largura e a profundidade. Nela posso contar várias partes e atribuir-lhes toda a espécie de grandezas, figuras, situações e movimentos locais, e a estes movimentos quaisquer durações. E não conheço apenas perfeitamente e com evidência estas coisas, assim genericamente consideradas. Além disso, se presto atenção, concebo também inúmeras particularidades sobre as figuras, o número, o movimento, e coisas semelhantes, cuja verdade é tão clara e tão consentânea com a minha natureza que, logo que as começo a descobrir, parece-me que não aprendo qualquer coisa de novo, mas que, ao contrário, me recordo do que já anteriormente sabia: ou seja, que presto atenção, pela primeira vez, a coisas que há muito tempo já estavam dentro de mim, sem que eu antes tivesse dirigido para elas a minha atenção."

DESCARTES, Meditações sobre a Filosofia Primeira

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Descartes



"Esta dúvida radical é a cruz do método cartesiano. Como mostram a segunda e quarta regras, o seu método é analítico: procede pela divisão das coisas e dos pensamentos. E o instrumento de que serve para os dividir é fornecido pela primeira regra: "nada aceitar como verdadeiro" até o espírito, passo a passo, alcançar os elementos divididos, esses fundamentos "dos quais não tenha motivos para duvidar".

O cerne do pensamento cartesiano é expresso numa frase que ele usou frequentemente, (…) devemos duvidar de tudo. Pode parecer um conselho bastante cínico da parte de um homem religioso; e, com efeito não o tornou popular aos olhos dos homens religiosos. Quando Descartes usou o método da dúvida, chegou a uma posição religiosa, de algum modo paradoxalmente. Mas o seu objectivo ao usar o método foi sempre claro. Contrariamente a Michel Montaigne e outros cépticos contra quem escreveu, Descartes não estava interessado na atitude então na moda de duvidar pela própria dúvida. O seu fito, era, por meio da dúvida, descer até ao que pode ser encarado como certeza. Este era procedimento científico essencialmente usado pelos físicos seiscentistas, para os quais a dúvida representava um papel constante: "não aceitar nada como verdadeiro" até estar estabelecido, tanto quanto possível para lá de qualquer dúvida. (…)
Se se duvidar de tudo, que é que permanece por detrás da dúvida? Apenas o facto de duvidar. Isto pode parecer um expediente filosófico: mas, no fundo, está, por certo correcto. Não se pode duvidar sem estar a duvidar, isto é, sem ser mais do que o feixe de impressões sensíveis de que está a duvidar. Porque se se duvida, não se aceitam as impressões dos sentidos tal como se recebem; o universo não é já algo exterior imprimindo em nós impessoalmente as suas marcas. A relação ao universo torna-se pessoal; pelo processo da dúvida, exploramo-lo e reconstruímo-lo. E exploramo-nos a nós próprios, provamo-nos e fazemo-nos. Só o eu resiste à dúvida e a dúvida cria o eu.

É este pensamento que Descartes formulou numa das frases mais famosas da filosofia: (…) Penso logo existo." J. Bronowski, Bruce Mazlish, A Tradição Intelectual do Ocidente, Edições 70.

1. Explicite o significado da seguinte afirmação: " esta dúvida radical é a cruz do método cartesiano."


2. Torne evidente, fundamentando, o alcance filosófico da dúvida elaborada por Descartes.


Retirado do site Netprof.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O racionalismo


"A posição epistemológica que vê no pensamento, na razão, a fonte principal do conhecimento humano, chama-se racionalismo (de ratio = razão). Segundo ele, um conhecimento só merece na realidade este nome quando é logicamente necessário e universalmente válido. Quando a nossa razão julga que uma coisa tem que ser assim e que não pode ser de outro modo, que tem de ser assim, portanto, sempre e em todas as partes, então, e só então, nos encontramos ante um verdadeiro conhecimento, na opinião do racionalismo. Um conhecimento desse tipo apresenta-se-nos, por exemplo, quando formulamos o juízo "o todo é maior do que a parte", ou o juízo "todos os corpos são extensos". Em ambos os casos vemos com evidência que tem de ser assim e que a razão se contradizia a si mesma se quisesse sustentar o contrário. E porque tem de ser assim, é também sempre e em todas as partes assim. Estes juízos possuem, pois, uma necessidade lógica e uma validade universal rigorosa.
Pelo contrário, sucede uma coisa muito diferente com o juízo "todos os corpos são pesados", ou no juízo "a água ferve a 100 graus". Neste caso só podemos ajuizar que é assim, mas não que tem de ser assim. É perfeitamente concebível que a água ferva a uma temperatura inferior ou superior; e também não significa uma contradição interna representar-se um corpo que não possua peso, pois a nota do peso não está contida no conceito do corpo. Estes juízos não têm, pois, necessidade lógica. E mesmo assim falta-lhes a rigorosa validade universal. Podemos julgar unicamente que a água ferve a 100 graus e que os corpos são pesados, até onde podemos comprová-lo. Estes juízos só são válidos, pois, dentro de limites determinados. A razão disto é que, nestes juízos, encontramo-nos limitados à experiência. Isto não acontece nos juízos primeiramente citados. Formulamos o juízo "todos os corpos são extensos" representando o conceito de corpo e descobrindo nele a nota da extensão. Este juízo não se funda, pois, em qualquer experiência mas sim no pensamento. Daqui resulta, portanto, que os juízos fundados no pensamento, os juízos que procedem da razão, possuem necessidade lógica e validade universal; os outros, pelo contrário, não a possuem. Todo o verdadeiro conhecimento se funda deste modo – assim conclui o racionalismo –, no pensamento. Este é, por conseguinte, a verdadeira fonte e base do conhecimento humano.
Uma forma determinada do conhecimento serviu evidentemente de modelo à interpretação racionalista do conhecimento. Não é difícil dizer qual é: é o conhecimento matemático. Este é, com efeito, um conhecimento predominantemente conceptual e dedutivo. Na geometria, por exemplo, todos os conhecimentos derivam de alguns conceitos e axiomas supremos. O pensamento impera com absoluta independência de toda a experiência, seguindo somente as suas próprias leis. Todos os juízos que formula, distinguem-se, além disso, pelas características da necessidade lógica e da validade universal. Pois bem; quando se interpreta e concebe todo o conhecimento humano em relação a esta forma de conhecimento, chega-se ao racionalismo."
J. Hessen, Teoria do Conhecimento, Almedina

1. O texto de J. Hessen torna evidente as principais características do racionalismo. Seleccione do mesmo, cinco adjectivos que tornem evidente a especificidade desta corrente filosófica.
2. Produza um pequeno texto onde evidencie a cumplicidade entre o racionalismo e o pensamento matemático e geométrico.
(Retirado do site Netprof)

O racionalismo Platónico


Platão desenvolveu a noção de que o homem está em contacto permanente com dois tipos de realidade: a inteligível e a sensível. A primeira, é a realidade, mais concreta, permanente, imutável, igual a si mesma. A segunda são todas as coisas que nos afectam os sentidos, são realidades dependentes, mutáveis e são imagens das realidades inteligíveis.

Tal concepção de Platão também é conhecida por Teoria das Ideias ou Teoria das Formas. Foi desenvolvida como hipótese no diálogo Fédon e constitui uma maneira de garantir a possibilidade do conhecimento e fornecer uma inteligibilidade relativa aos fenómenos .

Para Platão, o mundo concreto percebido pelos sentidos é uma pálida reprodução do mundo das Ideias . Cada objecto concreto que existe participa, junto com todos os outros objectos de sua categoria, de uma Ideia perfeita. Uma determinada caneta, por exemplo, terá determinados atributos (cor, formato, tamanho, etc.). Outra caneta terá outros atributos, sendo ela também uma caneta, tanto quanto a outra. Aquilo que faz com que as duas sejam canetas é, para Platão, a Ideia de Caneta, perfeita, que esgota todas as possibilidades de ser caneta.

A ontologia de Platão diz, então, que algo é na medida em que participa da Ideia desse objecto . No caso da caneta é irrelevante, mas o foco de Platão são coisas como o ser humano, o bem ou a justiça, por exemplo.
O problema que Platão propõe-se a resolver é a tensão entre Heráclito e Parménides: para o primeiro, o ser é a mudança, tudo está em constante movimento e é uma ilusão a estabilidade , ou a permanência de qualquer coisa; para o segundo, o movimento é que é uma ilusão, pois algo que é não pode deixar de ser e algo que não é não pode ser, assim, não há mudança.

Ou seja (por exemplo), o que faz com que determinada árvore seja ela mesma desde o estágio de semente até morrer, e o que faz com que ela seja tão árvore quanto outra de outra espécie, com características tão diferentes? Há aqui uma mudança, tanto da árvore em relação a si mesma (com o passar do tempo ela cresce) quanto da árvore em relação a outra. Para Heráclito , a árvore está sempre mudando e nunca é a mesma, e para Parménides, ela nunca muda, é sempre a mesma e é uma ilusão sua mudança.

Platão resolve esse problema com sua Teoria das Ideias. O que há de permanente em um objecto é a Ideia, mais precisamente, a participação desse objecto na sua Ideia correspondente. E a mudança ocorre porque esse objecto não é uma Ideia , mas uma incompleta representação da Ideia desse objecto . No exemplo da árvore, o que faz com que ela seja ela mesma e seja uma árvore (e não outra coisa), a despeito de sua diferença daquilo que era quando mais jovem e de outras árvores de outras espécies (e mesmo das árvores da mesma espécie) é sua participação na Ideia de Árvore; e sua mudança deve-se ao fato de ser uma pálida representação da Ideia de Árvore.

Platão também elaborou uma teoria gnosiológica, ou seja, uma teoria que explica como se pode conhecer as coisas, ou ainda, uma teoria do conhecimento. Segundo ele, ao vermos um objecto repetidas vezes, uma pessoa lembra-se, aos poucos, da Ideia daquele objecto , que viu no mundo das Ideias . Para explicar como se dá isso, Platão recorre a um mito (ou uma metáfora) que diz que, antes de nascer, a alma de cada pessoa vivia em uma Estrela onde localizam-se as Ideias. Quando uma pessoa nasce, sua alma é "jogada" para a Terra, e o impacto que ocorre faz com que esqueça o que viu na Estrela. Mas ao ver um objecto aparecer de diferentes formas (como as diferentes árvores que se pode ver), a alma recorda-se da Ideia daquele objecto que foi vista na Estrela. Tal recordação, em Platão, chama-se anamnesis.


A reminiscência
Uma das condições para a indagação ou investigação acerca das Ideias é que não estamos em estado de completa ignorância sobre elas. Do contrário, não teríamos nem desejo nem poder de procurá-las. Em vista disso, é uma condição necessária (para tal investigação) que tenhamos em nossa alma alguma espécie de conhecimento ou lembrança de nosso contacto com as Ideias contacto esse ocorrido antes do nosso próprio nascimento) e nos recordamos das Ideias por vê-las reproduzidas palidamente nas coisas. Deste modo, toda a ciência platónica é uma reminiscência. A investigação das Ideias supõe que as almas preexistiram em uma região divina onde contemplavam as Ideias . Podemos tomar como exemplo o Mito da Parelha Alada, localizado no diálogo Fedro, de Platão. Neste diálogo, Platão compara a raça humana a carros alados. Tudo o que fazemos de bom, dá forças às nossas asas. Tudo o que fazemos de errado, tira força das nossas asas. Ao longo do tempo fizemos tantas coisas erradas que nossas asas perderam as forças e, sem elas para nos sustentarmos, caímos no Mundo Sensível, onde vivemos até hoje. A partir deste momento, fomos condenados a vermos apenas as sombras do Mundo das Ideias .


Conhecimento
Platão não buscava as verdadeiras essências da forma física como buscavam Demócrito e seus seguidores, sob influência de Sócrates buscava a verdade essencial das coisas. Platão não poderia buscar a essência do conhecimento nas coisas, pois estas são corruptíveis, ou seja, variam, mudam, surgem e se vão. Como o filósofo deveria buscar a verdade plena, deveria buscá-la em algo estável, as verdadeiras causas, pois logicamente a verdade não pode variar, se há uma verdade essencial para os homens esta verdade deve valer para todas as pessoas. Logo, a verdade deve ser buscada em algo superior. Nas coisas devem ter um outro fundamento, que seja além do físico, a forma de buscar estas realidades vem do conhecimento, não das coisas, mas do além das coisas. Esta busca racional é contemplativa, isto significa buscar a verdade no interior do próprio homem. Porém o próprio homem não é meramente sujeito particular, mas como um participante das verdades essenciais do ser.

Platão assim como seu mestre Sócrates busca descobrir as verdades essenciais das coisas. O conhecimento era assim o conhecimento do próprio homem, mas sempre ressaltando o homem não enquanto corpo, mas enquanto alma. O conhecimento que continha na alma era a essência daquilo que existia no mundo sensível, assim em Platão também a técnica e o mundo sensível eram secundários. A alma humana enquanto perfeita participa do mundo perfeito das ideias, porém este formalismo só é reconhecível na experiência sensível.

Também o conhecimento tinha fins morais, isto é, levar o homem à bondade e à felicidade. Assim a forma de conhecimento era um reconhecimento, que faria o homem dar-se conta das verdades que sempre já possuía e que o levavam a discernir melhor dentre as aparências de verdades e as verdades. A obtenção do autoconhecimento era um caminho árduo e metódico.

Referente ao mundo material o homem pode ter somente a doxa (opinião) e téchne (técnica), que permitia a sobrevivência do homem, ao passo que referente ao mundo das ideias, ou verdadeiro conhecimento filosófico, o homem pode ter a episthéme (verdadeiro conhecimento).

Platão não defendia que todas as pessoas tivessem iguais acessos à razão. Apesar de todos terem a alma perfeita, nem todos chegavam à contemplação absoluta do mundo das ideias.

O problema da origem do conhecimento


Relativamente ao problema da origem do conhecimento, existem duas concepções diferentes:

Para o racionalismo, corrente filosófica que iniciou com a definição do raciocínio que é a operação mental, discursiva e lógica. Este usa uma ou mais proposições para extrair conclusões se uma ou outra doutrinas conhecidas tradicionalmente como racionalismo.
Segundo Descartes:

"O racionalismo pode consistir em considerar a razão como essência do real, tanto natural quanto histórico. Sustenta a primazia da razão, da capacidade de pensar, de raciocinar, em relação ao sentimento e à vontade, pressupondo uma hierarquia de valores entre as faculdades psíquicas; ou a posição segundo a qual somente a análise lógica ou a razão pode propiciar desta forma o desenvolvimento da análise científica do método matemático que passa a ser considerado como instrumento puramente teórico e dedutivo, que prescinde de dados empíricos, aplicados às ciências físicas que levaram a uma crescente fé na capacidade do intelecto humano para isolar a essência no real e ao surgimento de uma série de sistemas metafísicos fundados na convicção de que a razão constitui o instrumento fundamental para a compreensão do mundo, cuja ordem interna, aliás, teria um carácter racional."
Conforme descrito acima, da obra de Descartes, o conjunto de aptidões em função das quais os indivíduos aprendem mais rapidamente novas informações e se revelam mais eficientes no manejo e aproveitamento adequado de conhecimentos já armazenados por meio de aprendizagens anteriores e empíricas, estas podem fazer com que através da análise lógica se descubram processos ou sistemas mais rapidamente pelo método lógico e matemático, ao invés do método empírico, pois o empirismo leva em conta a tentativa e erro, enquanto que o método lógico e a análise crítica levam às respostas necessárias minimizando a necessidade do experimentalismo prático. Esta visão chamada de cartesiana alterou e acelerou as descobertas científicas. O racionalismo dominou e domina até os dias de hoje o método científico de análise lógica.



Por seu lado, a doutrina do empirismo foi definida explicitamente pela primeira vez pelo filósofo inglês John Locke.Este filósofo argumentou que a mente seria, originalmente, um "quadro em branco" (tábua rasa), sobre o qual é gravado o conhecimento, cuja base é a sensação. Ou seja, todas as pessoas, ao nascer, o fazem sem saber de absolutamente nada, sem impressão nenhuma, sem conhecimento algum. Todo o processo do conhecer, do saber e do agir é aprendido pela experiência, pela tentativa e erro.

Historicamente, o empirismo opõe-se à escola conhecida como racionalismo, segundo a qual o homem nasceria com certas ideias inatas, as quais iriam "aflorando" à consciência e constituiriam as verdades acerca do Universo. A partir dessas ideias, o homem poderia entender os fenômenos particulares apresentados pelos sentidos. O conhecimento da verdade, portanto, independeria dos sentidos físicos.

Em seu livro Ensaio Sobre o Entendimento Humano, Locke descreve a mente humana como uma tábua rasa (literalmente, uma "ardósia em branco"), onde, por meio da experiência, vão sendo gravadas as ideias. A partir dessa análise empirista da epistemologia Locke diferencia dois tipos de ideias: as ideias simples, sobre as quais não se poderia estabelecer distinções, como a de amarelo, duro, etc., e as ideias complexas, que seriam associações de ideias simples (por exemplo ouro — que é uma substância dura e de cor amarelada). Com isso, formaría-se um conceito abstracto da substância material.

No século XVIII, Berkeley desenvolve o empirismo de John Locke mas não admite a passagem dos conhecimentos fornecidos pelos dados da experiência para o conceito abstracto de substância material. Por isso, Berkeley afirma que uma substância material não pode ser conhecida em si mesma. O que se conhece, na verdade, resume-se às qualidades reveladas durante o processo perceptivo. Assim, o que existe realmente nada mais é que um feixe de sensações. Daí sua famosa frase: ser é ser percebido.